sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

OVELHAS SEM PASTOR



Sou de um tempo em que Católicos e evangélicos se odiavam e vivam se digladiando mutuamente. Calúnias e difamações entre uns e outros eram bastante comuns. Os anos passaram, as diferenças foram amenizando e por incrível que pareça até respeito surgiu entre ambos os lados com relação ao outro. No seio da igreja católica surgiu a renovação carismática, com suas ênfases sobre a espiritualidade muito semelhante à dos pentecostais. Os hinos, que hoje são chamados por todos de louvores são na maioria das vezes os mesmos. Marcelo Rossi grava músicas de cantores evangélicos com uma naturalidade de quem as compõe. “Crentes” e católicos convivem harmoniosamente uns com os outros sem nenhum problema, a não ser umas afirmações isoladas aqui e outras ali. Isso é muito bom, indica que os cristão amadureceram razoavelmente e reconhecem no outro traços de uma mesma religiosidade que tem suas raízes no mesmo fundador. Até mesmo entre os líderes católicos e evangélicos existe uma certa proximidade e respeito, mas isso no que concerne ás questões de interesse mútuo, como sua "luta" contra o aborto, a homossexualidade e outros assuntos de interesses pertinentes âmbos os lados.
Entretanto, essa “convivência amigável” se dá apenas no âmbito da informalidade, onde as ovelhas de um e outro pasto se misturam no cotidiano e tem uma convivência razoavelmente pacífica. Formalmente falando, um ecumenismo (movimento que visa à unificação das igrejas cristãs) entre as várias denominações cristãs está muito distante de acontecer e provavelmente nunca irá acontecer. Qualquer tentativa formalizada nesse sentido exclui imediatamente os católicos. Nos evangélicos entre si parece mais fácil uma admissão formal entre as diferentes manifestações. Os membros da Batista por exemplo não tem problema algum em frequentar um culto na Igreja Assembleia de Deus e vice-versa. Essas ovelhas conseguem conviver pacificamente apesar das divergências históricas de mais de um século. Até aqui tudo bem. Porém, quando se trata da simpatia de um líder renomado de uma denominação em relação ao outro a coisa muda de figura.
Tempos atrás dediquei algumas horas no Youtube assistindo sessões públicas de ofensas e acusações mútuas entre os mais renomados líderes evangélicos desse país. Cada qual num empenho dantesco em tripudiar seu inimigo/concorrente diante das câmeras. Silas que odeia Caio Fábio que odeia Bispo Valdomiro que odeia Edir que odeia casal Hernandes que odeia... Enfim, um ciclo interminável de ódio, ofensas e xingamentos como: vagabundos, safado, ladrão, traidor, canalha, são normais. Fica a pergunta: porque isso acontece justamente entre aqueles que deveriam convergir no anúncio da mensagem em que todos se dizem interessados em levar ao mundo? Porque os líderes evangélicos se odeiam tanto e se digladiam mutua e publicamente? Será que seus interesses dizem respeito ao que consideram ser a verdade suprema do Reino de Deus?
Na cabeça de um crente comum, bem intencionado, fiel a seu Deus e à sua fé surgem algumas questões e suas explicações possíveis. Entre elas fico com duas possíveis. Primeira explicação: estão todos errados; segunda explicação, estão quase todos errados e só um deles certo. Beleza, assim ficou fácil. Se um deles está certo nada está perdido, é só escolher qual deles está certo e ponto final. Porém fica a pergunta: qual deles está certo, se é que alguém está? Difícil saber, uma vez que todo esse ódio declarado publicamente não tem nada a ver com cristianismo, uma vez que o fundador do cristianismo e seus primeiros divulgadores não pregavam muito menos cultivavam esse ódio por seus inimigos.
Muitos cristãos fieis acabam entrando nessa briga e assumindo um posicionamento bem definido em favor deste ou daquele líder. Muitas vezes esse posicionamento se dá de forma duradoura e até mesmo fiel. Outras vezes, em curto prazo se decepcionam e vão atrás de outro líder, pelo qual se posicionam novamente da mesma forma, por mais um tempo, até que se deparem com uma segunda decepção e assim sucessivamente.
Diante de tantas mentiras, brigas, descaso, desonestidades e tantas outras formas de escândalos envolvendo tais líderes está surgindo uma nova forma de ser igreja. São pessoas cansadas com todo esse circo dos horrores em que tantos palhaços se digladiam mutuamente que resolveram formam em pequenos círculos, longe dos templos e de seus algozes. A esse movimento que vem ganhando cada vez mais força e se propagando na informalidade se atribuiu de forma até mesmo pejorativa o título de “os sem igreja”. Esses movimentos não são muito estruturados teologicamente, porém todos eles tem alguns pontos em comum, entre eles uma visão bem coerente, segundo a minha compreensão a respeito das igrejas de massas e de suas principais ênfases, as quais ganha destaque a questão do dízimo. São pessoas cansadas de serem vítimas dos mercadores da fé, onde nada mais importa a não ser a lá e a gordura de suas ovelhas. Essa nova modalidade de ser igreja não tem nenhuma motivação teológica complexa, como aconteceu com vários movimentos surgidos no seio da igreja desde que ela se estruturou de forma política e organizada, lá por volta do quarto século. Tem a ver com uma questão bem pragmática. As ovelhas se sentiram sozinhas e exploradas e resolveram por conta própria se rebelarem contra seus pastores. Diferente do movimento de reforma protestante surgido no século dezesseis, onde grandes líderes como Lutero e Calvino deram o ponta pé inicial e o movimento se propagou e se articulou de forma organizada nos séculos seguintes.
Como teólogo poderia fazer uma reflexão teológica com argumentos bíblicos e exegéticos. Mas seria muito óbvio e apenas uma visão diferenciada partindo do mesmo referencial do qual todos esses líderes se utilizam, que é a Bíblia. Minha referência hermenêutica a tal situação tem como base um pequeno trecho de um livro de um dos homens mais odiados de todos os tempos pelos cristãos de forma geral. Uns dois meses atrás uma amiga me emprestou um de seus livros chamado Humano, demasiado humano, um livro para espíritos livres, de Friedrich Nietzsche. Por se tratar de um livro de aforismos selecionei algumas partes que considero mais importantes, as quais estou lendo de forma bem leve e descontraída, selecionando as partes que mais me chamam a atenção. Entre os poucos de seus livros que li a metodologia por mim utilizada foi a mesma. Nenhum compromisso em aprofundar-me na obra. Devo reconhecer que essa tarefa seria dificílima e exigiria de mim muito mais tempo e paciência além do que posso e quero no momento. Além do mais, qualquer tentativa em aprofundá-lo seria infrutífera e desgastante se não estivesse realmente disposto a me entregar de corpo e alma a uma tarefa dessa grandeza. Nesse rítmo leve e descontraido, nos últimos quinze anos consegui ler apenas quatro de suas principais obras. Nesse último adotei uma metodologia diferente. Por se tratar de aforismos, o que permite uma leitura não linear, como os livros são escritos convencionalmente, escolhi os temas de forma aleatória, priorizando por ordem de interesse. Hoje, ao folhea-lo, me deparei com o seguinte tema no terceiro capítulo: “A vida religiosa”. O primeiro parágrafo desse capítulo, o aforismo 108, onde diz o seguinte:
“A dupla luta contra o infortúnio. – Quando um infortúnio nos atinge, podemos superá-lo de dois modos: eliminando a sua causa ou modificando o efeito que produz em nossa sensibilidade; ou seja, reinterpretando o infortúnio como um bem, cuja utilidade talvez se torne visível depois. A religião e a arte (e também a filosofia metafísica) se esforçam em produzir a mudança da sensibilidade, em parte alterando nosso juízo sobre os acontecimentos (por exemplo, com ajuda da frase: "Deus castiga a quem ama"), em parte despertando prazer na dor, na emoção mesma (ponto de partida da arte trágica). Quanto mais alguém se inclina a reinterpretar e ajustar, tanto menos pode perceber e suprimir as causas do infortúnio; o alívio e a anestesia momentâneos, tal como se faz na dor de dente, por exemplo, bastam-lhe mesmo nos sofrimentos mais graves. Quanto mais diminuir o império das religiões e de todas as artes da narcose, tanto mais os homens se preocuparão em realmente eliminar os males: o que, sem dúvida, é mau para os poetas trágicos - pois há cada vez menos matéria para a tragédia, já que o reino do destino inexorável e invencível cada vez mais se estreita, - mas é ainda pior para os sacerdotes: pois até hoje eles viveram da anestesia dos males humanos”.
É óbvio que a crítica de Nietzsche ao cristianismo, de forma geral não é assim tão simplista. Os motivos estão relacionados a todo um complexo sistema moral, elaborado ao longo dos séculos, no qual, segundo ele, toda a imanência da vida foi transferida para a transcendência. Nesse sentido, segundo ele, todo o prazer pela vida terrena foi condenado pela igreja como contraproducente a vida terrena, a qual suplantava a verdadeira vida, a vida eterna. O próprio Lutero confrontou a mesma situação 3 séculos antes.
Tendo em vista a vastidão da crítica Friedrich Nietzschehiana ao cristianismo faz-se necessário delimitar ao máximo o ponto de partida de minha análise do aforismo cento e oito. O ponto exato que interessa aqui é o seguinte: “Quanto mais diminuir o império das religiões e de todas as artes da narcose, tanto mais os homens se preocuparão em realmente eliminar os males: o que, sem dúvida, é mau para os poetas trágicos - pois há cada vez menos matéria para a tragédia, já que o reino do destino inexorável e invencível cada vez mais se estreita, - mas é ainda pior para os sacerdotes: pois até hoje eles viveram da anestesia dos males humanos”.
Verdade seja dita. Nietzsche estava extremamente correto nesse trecho em particular. Com incrível poder de síntese Nietzsche ataca de modo contundente o sistema religioso. Retomando a ideia de Marx da religião como o ópio do povo ele diz que o império religioso, tal como foi construído ao longo dos séculos, representado pelos seus líderes, vive e se expande às custas da miséria humana e de seus pseudo-antídotos contra essas mesmas misérias. Segundo sua crítica, a religião, ao oferecer alivio momentâneo às dores e angústias humanas tiram de foco a verdadeira natureza dessas dores, evitando assim um diagnóstico autêntico, assim como a possível cura para esses males.
Não é exatamente isso que todos esses líderes estão oferecendo ao povo? Cura, bênçãos, saúde, riqueza e felicidade são apenas algumas das recompensas espirituais ao povo. O difere parcialmente é que agora as bênçãos se dão na vida terrena. Não precisa morrer para desfrutar do paraíso, afinal, ele está bem aqui e agora, acessível inicialmente por apenas dez por cento de seu salário, podendo se estender, num ato incrível de fé a noventa por cento, ou quem sabe ainda, na sua totalidade. Por que tanto desespero em ofender, afrontar, caluniar um ao outro? A razão é bem simples, quem afronta mais, convence melhor de que o outro está errado e consequentemente de que ele mesmo está correto, o que lhe renderá mais fiéis e em seguida mais dinheiro.
O triste disso tudo é que, além do povo ser subtraído por todos esses canalhas, seus reais problemas são camuflados e nem sequer são reconhecidas as suas mazelas. A igreja está a cada dia perdendo sua dimensão profética e se transformando numa feira das vaidades, onde o produto exposto é a fé, os mercadores são os pregadores, os templos são os shoppings e a Bíblia é um inútil código de defesa do consumidor, pois, se nada funcionar não se pode recorrer a ela, mas sim questionar a própria legitimidade da fé. Resumindo, um sistema perfeito de dominação e exploração do rebanho, o qual é ultrajado de forma cruel e calculista em sua dimensão mais profunda, que é a capacidade de acreditar, de sonhar e vislumbrar um mundo novo, cheio de possibilidades. É bem verdade que líderes assim vivem da anestesia dos males humanos, uma vez que não tem o mínimo interesse em combater suas causas, as quais de dão e se manifestam nas camadas mais distintas da sociedade. Não é interessante a eles combaterem as estruturas sociais corruptas vigentes, muito mais fácil e lucrativo é vender o analgésico genérico travestido de do fé.
Apesar de ter dito de forma generalizante faz-se necessário ser justo com tantos líderes cristãos, independente da denominação à qual pertencem, os quais não se renderam a esse sistema corrupto e enganador. Muitos ainda tem um compromisso maior com a vida, com a justiça e a dignidade humanas. Paralelamente a um sistema manipulador e enganoso sempre tem aqueles pastores (falo pastor não no sentido do título em si, mas no sentido metafórico, por isso incluo aqui muitos padres) dispostos a sacrificarem suas vidas pelas ovelhas se necessário for, mas sei que se trata de uma espécie em extinção. Difícil dizer até onde as coisas caminharão no ritmo em que estão, mas possivelmente os tais “desigrejados” sejam o espinho no pé desses líderes enganadores. Talvez o movimento responsável pela reorientação das igrejas venha justamente daqueles que agora a estejam rejeitando em sua forma institucionalizada, poderosa e corrompida.
* Por mais que no meu íntimo tendo a querer generalizar não o faço em respeito a alguns amigos que fazem parte desse meio, os quais tem caráter e inteligências infinitamente superiores a maioria massificadora dos líderes religiosos por esse Brasil afora.
[Cancel my subscription to the Resurrection
Send my credentials to the House of Detention
I got some friends inside]
Jim Morrison (The Doors)

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

A ÉTICA E A CIDADANIA NAS RELAÇÕES HUMANAS NO DECORRER DO PROCESSO HISTÓRICO COMO FONTE DE PRODUÇÃO DE CONHECIMENTO

A ÉTICA E A CIDADANIA NAS RELAÇÕES HUMANAS NO DECORRER DO PROCESSO HISTÓRICO COMO FONTE DE PRODUÇÃO DE CONHECIMENTO


SOC 0055 – Disciplina Prática do Módulo III


O trabalho é acadêmico, mas não consta nome e dados por questões para preservar meu anonimato, caca alguem tenha interesse entrar em contato



RESUMO

Os valores éticos e morais precisam estar presentes na vida do ser humano, pois só assim conseguirá viver plenamente em harmonia dentro da sociedade a qual ele está inserido. O conceito etimológico da palavra ética sofreu mudanças com o decorrer do processo histórico, e todas essas mudanças foram significativas para a evolução do homem enquanto sujeito de direitos e deveres.
                                                        
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          
Palavras-chave: Cidadania, Ética, Relações Humanas, Sociedade.


1 INTRODUÇÃO


Atualmente vivemos uma sociedade em crise, onde os valores morais e éticos estão cada vez mais ausentes. A solidariedade e o amor ao próximo estão dando lugar às brigas, preconceitos e diversas formas de violência. O cidadão brasileiro acorda diariamente ouvindo notícias terríveis e desastrosas que acontecem em toda parte do país, afetando direta ou indiretamente suas relações com as pessoas, é isso que buscamos ressaltar neste pequeno artigo que dividimos em cinco partes.

Primeiramente visamos analisar o conceito de ética e cidadania e a importância das relações éticas na vida do ser humano. Num segundo momento mostrar a evolução da ética no decorrer do processo histórico, bem como a cidadania neste processo.

Após discutirmos tais conceitos, buscamos analisar o comportamento ético e a cidadania nas relações sociais, bem como a ética e o exercício da cidadania como fonte da aprendizagem, já que os valores familiares estão tão ausentes.

Para finalizar faremos uma breve passagem sobre o papel do educador enquanto mediador das relações sociais.


2 A ÉTICA E A CIDADANIA NAS RELAÇÕES SOCIAIS NO DECORRER DO PROCESSO HISTÓRICO



O conceito de cidadania e ética renova-se a cada dia frente às transformações sociais, principalmente diante das mudanças ideológicas e o processo histórico vivenciado. Ser ético, agir dentro da moral e exercer nosso direito de cidadão é nosso foco de estudo.


2.1 ÉTICA E CIDADANIA E SUA IMPORTÂNCIA NAS RELAÇÕES SOCIAIS

A ética surgiu no seio das relações sociais, pois nelas é que o ser humano começou a se perguntar o que é certo e justo, o que é errado e injusto. Foi na convivência em sociedade que surgiu a questão do bem e do mal e se teve a necessidade de elaborar as ideias de honestidade, fidelidade, liberdade e justiça. A partir disso, com os parâmetros estabelecidos do certo e do errado, leis foram criadas e governos surgiram para disciplinar e punir os infratores, aqueles que não preservassem o bem estar social (CORDI, 2007, p. 61).

A palavra ética vem do substantivo grego ethos/êthos que por sua vez deriva de ethô (estar habituado, se apropriar). Basicamente podemos afirmar que essas duas palavras significam: costume, hábito, podendo ainda significar caráter, mentalidade, índole (WIESE, 2008).

Podemos afirmar que a partir de sua definição etimológica, a ética e cidadania andam juntas. Enquanto que àquela se refere à reflexão sistemática do que é o bem para todos, a cidadania se relaciona com os direitos políticos, civis e sociais que possibilitam a afirmação da dignidade e liberdade humana.

A cidadania pode ser entendida ainda como o conjunto de direitos e deveres civis, políticos e sociais estabelecidos na constituição de um país. Há um dever do Estado moderno em proporcionar uma vida digna e participativa a todos os seus habitantes. Portanto, cidadania tem haver com o direito à vida e com tudo o que está ligado à sua promoção, tais como: justiça, saúde, trabalho educação etc. Mas é desafiador atingir a cidadania plena. Por quais razões? Porque a maioria dos países coloca suas leis pertinentes à ética e cidadania no papel, mas na prática acaba ocorrendo outra coisa.

Assim, estamos diante do problema da corrupção e da falta de boa vontade política (ética?) em levar a sério sua vocação de promover os princípios éticos e a cidadania, a fim de promover uma qualidade de vida para todos e, não apenas para uma minoria privilegiada e poderosa, como frequentemente ocorre.
        
A relação entre ética e cidadania é coisa antiga. Desde os gregos, os valores morais geraram reflexões, no afã de construir uma organização social mais eficaz. Na verdade sempre foi desafiador construir uma sociedade marcada pela ética e cidadania.

O filósofo grego Sócrates, ao pensar sobre o fundamento e o sentido dos costumes estabelecidos, indagar o que são virtudes e o bem realizava duas interrogações: Por um lado, interroga a sociedade para saber se o que ela costuma considerar virtuoso e bom corresponde efetivamente à virtude e ao bem. Por outro lado, interroga os indivíduos para saber se, ao agir, possuem efetivamente consciência do significado e da finalidade de suas ações, se seu caráter ou sua índole são realmente virtuosos e bons (CHAUI, 2004, p. 311).

Sendo assim, observamos desde a antiguidade a importância da ética e cidadania nas relações sociais. A indagação ética socrática dirige-se, portanto, à sociedade e ao indivíduo. Então, Ética e cidadania são dois importantes conceitos do mundo ocidental que nasceram em contexto grego e que marcam os Estados Modernos e regidos por princípios democráticos.

Apesar de inúmeras definições para ética, e uma robusta reflexão filosófica ocidental sobre essa questão, muitas pessoas parecem não ter compreendido ainda o seu significado e importância para a vida cidadã. E o pior: vivem de tal forma que se isentam de sua responsabilidade cidadã, resultando em uma sociedade desregrada e cada vez mais difícil de conviver.

Diante disso, é da responsabilidade de pensadores, líderes políticos e religiosos, professores, alunos, enfim, todas as pessoas que primam por uma vida mais humana procurar acessar a reflexão do passado, refletir no presente e viver eticamente, sempre levando em conta o outro. O bem estar do indivíduo, não pode ser dissociado do seu contexto social. Ninguém fica bem só e é aqui que a reflexão ética se mostra útil para a promoção da cidadania.


2.2 ÉTICA E CIDADANIA NO DECORRER DO PROCESSO HISTÓRICO

Desde a Antiguidade até os dias atuais a ética sofreu diversas mudanças no decorrer do processo histórico. A ética esta presente em nosso dia-a-dia, principalmente nas nossas relações intrapessoais, ela é o a uma ciência que estuda o comportamento do ser humano. Segundo Valls, a ética

“É entendida como um estudo ou uma reflexão científica ou filosófica, e eventualmente até teológica, sobre os costumes ou sobre as ações humanas. Mas também chamamos de ética a própria vida, quando conforme aos costumes, e pode ser a própria realização de um tipo de comportamento”. (VALLS, 1994, p.7)

Sendo assim, a ética caminha com o homem desde a Antiguidade.

A ética nasceu na Grécia Antiga voltada para os princípios religiosos e místicos, a fim de implantar regras de convívio entre os grupos da sociedade. A ética neste período foi representada pelos três filósofos mais influenciáveis da história: Sócrates, Platão e Aristóteles.

Sócrates, pai da Filosofia desenvolveu sua maiêutica em torno da ética. Para ele, o homem deveria apenas saber sobre a questão da ética, pois isso seria o mais importante para sua vida, pois o conhecimento seria a alma humana, onde vive a verdade e a possibilidade de se tornar feliz, porém encontrar a verdade escondida dentro de si é um exercício que exige muito preparo e o homem não está preparado para isso e o filósofo teria a missão de conduzir o sujeito ao encontro da verdadeira felicidade. Para encontrar a felicidade o homem precisa ser ético, ter uma conduta correta, estar bem com o mundo, ser bondoso, virtuoso, fazer o bem a toda à comunidade.

Platão, discípulo de Sócrates, tratou a ética como algo ligado com as questões políticas, da harmonia entre todos os moradores de uma determinada sociedade. Para ele a ética deveria permitir que todas as pessoas partilhassem do poder, onde este não ficasse nas mãos apenas de uma pessoa, mas de todas, onde não houvesse o eu, ma o nós. Já para Aristóteles, o bem moral agem equilibradamente sobre a orientação da razão. Segundo Passos (2004, p. 35), “o ‘meio-termo’, o ponto justo, levaria à felicidade, a uma vida ‘boa e bela’, não como privilégio individual e sim coletivo”.

Na Idade Média a ética ficou marcada nas teorias de Santo Agostinho e Tomás de Aquino.

Para Santo Agostinho apenas o dom divino era capaz de resgatar o homem dos seus pecados, a ética estava ligada aos princípios morais cristãos. Se você era um bom homem é porque sua relação com Deus estava boa, se você estava agindo fora da ética é porque sua relação com Deus estava em crise. Tomás de Aquino contradiz Agostinho, pois para ele o homem possui o livre arbítrio, orientado pela sua própria consciência, ele sabe o que deve fazer e pode escolher entre o bem e o mal.

Durante a Idade Moderna ocorreu a Revolução Francesa e Industrial, onde a Teocentrismo foi substituído pelo Antropocentrismo. Surgiram as teorias de Descartes e Kant.  A ética continuou a ser vista como uma ciência voltada para a felicidade coletiva vinculada para a felicidade plena dos cidadãos. Com as mudanças e a introdução no poder do Estado que seria o responsável pelo fornecimento e garantia de educação, justiça e direitos, condições necessárias para se tornar um cidadão ético. Neste período importante da história, Teles (2003, p.63) destaca que “a ética na Idade Moderna realizou uma reflexão sobre a construção dos valores morais, vitalizando uma crítica sobre práticas e ações humanas no âmbito da axiologia e das teorias voltadas para os valores morais e existenciais”.

A Idade Contemporânea, a qual se vive atualmente, os valores éticos e morais estão cada vez mais ausentes. A ética neste período ficou marcada Iluminismo e pela implantação da “Declaração dos Direitos Humanos”.

Kant foi um dos principais representantes do Iluminismo alemão. Para ele a ética é de caráter racional guiada pela boa vontade do ser humano, sem deixar influenciar-se pela emoção e desejos particulares, deve seguir os parâmetros da moral, onde seus atos passam a ser de sua inteira responsabilidade, propondo o conhecimento como a base da racionalidade.
Usando a razão ou a emoção agir eticamente é extremamente importante para conviver em sociedade, seja ela qual for os limites, o respeito, o amor e a solidariedade devem ser a bandeira de luta do homem, pois só assim o conceito de ética voltará a ser socrático, sendo esse o padrão ético ideal para se viver em sociedade.


2.3 A ÉTICA E A CIDADANIA NAS RELAÇÕES SOCIAIS

Vivemos numa era onde o desrespeito, desamor, violência, desvalorização à vida e padrões imorais e antiéticos estão cada vez mais presentes, desestruturando as sociedades ditas evoluídas, pois torna-se cada vez mais difícil conviver em harmonia com a ausência dos princípios e valores éticos e morais. Para viver em sociedade faz-se necessário que o homem siga os patrões pré-estabelecidos nesta sociedade, valores existenciais que devem ser passados em casa, pela família, no entanto, o antropocentrismo e o egocentrismo falam mais alto e o ‘eu’ quer passar acima do ‘nós’.

O conceito de ética evoluiu com o decorrer dos anos, como já analisamos anteriormente, no entanto os homens esqueceram a importância desta para viver em sociedade. Para Teles (2003, p. 39) é necessário que o homem reflita diariamente sobre a ética, pois esta é “uma reflexão sobre o fazer, antes de fazer, procurando fazer bem”, só assim ele lembrará que não vive sozinho e que suas atitudes baseadas na razão podem prejudicar e interferir a sua relação com os outros.

Toda e qualquer sociedade possui valores, alguns deles não são universais, o bem, o mau, justo e injusto, correto e incorreto depende de cada cultura, grupo social ou período histórico, no entanto o valor a vida, respeito ao próximo sim são valores universais, inclusive promulgados na “Declaração Universal dos Direitos Humanos do Cidadão”.

Há diversos fatores responsáveis que influenciam o homem a não agir dentro dos padrões éticos de uma sociedade. O primeiro deles é a mídia, onde as novelas e seriados mostram a ganância, injuria, desrespeito, falta de valores, ensinando as pessoas a seguir esses atos, mesmo que esse não seja o seu objetivo.

O capitalismo é outro grande responsável, se não o maior deles pela falta de valores nas relações sociais. Para adquirir um produto mostrado na TV, por exemplo, pessoas aceitam serem exploradas, humilhadas, querem consumir, muitas vezes produtos que nem lhes interessam, mas são estimuladas pelos donos do capital, que por sua vez visam apenas o lucro. Comprar é a lei que estão mais presente nas vidas nas famílias, os pais passam o dia todo trabalhando, para adquirir ainda mais dinheiro e esquecem que em casa estão os seus filhos que necessitam de amor, carinho, compreensão, auxílio, solidariedade, compaixão, se não possuem esses valores casa, que exemplo eles levarão para suas futuras famílias?

Segundo Filho (2011, p. 3) “a enorme importância dada ao dinheiro, em virtude do incentivo exacerbado ao consumismo de uma sociedade capitalista cavalar, desvirtuou as relações pessoais cotidianas, ocasionando um novo direcionamento na escala de importância social”.

Falta uma educação axiológica de valores, uma política de valores que aproxime mais as pessoas umas das outras. O próprio Jesus disse que devemos amar uns aos outros como ele nos amou. Os preconceitos étnicos, raciais, de sexo, são outro fator responsável pela proliferação da violência e do desamor ao próximo. É comum ligarmos a TV e vermos noticiários que mostram a crueldade dos homens contra seu próximo, inclusive entre pessoas de seu próprio sangue, no entanto quando o ser humano age de forma harmoniosa e contributiva, gera satisfação, alegria e progresso.

O avanço alarmante dos diversos tipos de violência demonstra que o homem não está exercendo corretamente o seu direito de cidadania e que não está vivendo dentro dos padrões éticos e morais. Muitos jovens estão suicidando-se com o uso das drogas, matando inocentes a fim de ter dinheiro para comprar o produto de seu vício, destruindo famílias, rompendo laços.

Mas apesar de todos os horrores, o ser humano também possui bondade. É tão lindo vermos quando um jovem ajuda uma senhora a atravessar a rua, beija a mão de uma jovem sem malícia, doa um alimento ou um dinheiro a um mendigo na rua, segundo Rousseau o homem nasce bom, mas é a sociedade que o corrompe.

Sendo assim, percebemos que a própria comunidade corrompe os valores, porém para exercer o seu direito de cidadania faz-se necessário que o homem viva dentro dos padrões éticos e morais que a comunidade a qual ele está inserido segue, só assim teremos uma sociedade mais justa, igualitária, onde a coletividade esteja acima dos interesses de uma minoria, por isso ressalto mais uma vez que se faz necessário uma educação voltada para a axiologia de valores.


2.4 A ÉTICA E O EXERCÍCIO DA CIDADANIA COMO FONTE DE APRENDIZAGEM

As relações humanas, embora complexas, são peças fundamentais na realização comportamental e profissional de um indivíduo. Desta forma, a análise dos relacionamentos entre professor/aluno envolve interesses e intenções, sendo esta interação o expoente das conseqüências, pois a educação é uma das fontes mais importantes do desenvolvimento comportamental e agregação de valores nos membros da espécie humana.

Neste sentido, a interação estabelecida caracteriza-se pela seleção de conteúdos, organização, sistematização didática para facilitar o aprendizado dos alunos e exposição onde o professor demonstrará seus conteúdos.

No entanto este paradigma deve ser quebrado, é preciso não limitar este estudo em relação comportamento do professor com resultados do aluno; devendo introduzir os processos construtivos como mediadores para superar as limitações do paradigma processo-produto.

Segundo GADOTTI (1999, p.2), o educador para pôr em prática o diálogo, não deve colocar-se na posição de detentor do saber, deve antes, colocar-se na posição de quem não sabe tudo, reconhecendo que mesmo um analfabeto é portador do conhecimento mais importante: o da vida.

Desta maneira, o aprender se torna mais interessante quando o aluno se sente competente pelas atitudes e métodos de motivação em sala de aula. O prazer pelo aprender não é uma atividade que surge espontaneamente nos alunos, pois, não é uma tarefa que cumprem com satisfação, sendo em alguns casos encarada como obrigação. Para que isto possa ser melhor cultivado, o professor deve despertar a curiosidade dos alunos, acompanhando suas ações no desenvolver das atividades.

O professor não deve preocupar-se somente com o conhecimento através da absorção de informações, mas também pelo processo de construção da cidadania do aluno. Apesar de tal, para que isto ocorra, é necessária a conscientização do professor de que seu papel é de facilitador de aprendizagem, aberto às novas experiências, procurando compreender, numa relação empática, também os sentimentos e os problemas de seus alunos e tentar levá-los à auto-realização.

De modo concreto, não podemos pensar que a construção do conhecimento é entendida como individual. O conhecimento é produto da atividade e do conhecimento humano marcado social e culturalmente. O papel do professor consiste em agir com intermediário entre os conteúdos da aprendizagem e a atividade construtiva para assimilação.

O trabalho do professor em sala de aula, seu relacionamento com os alunos é expresso pela relação que ele tem com a sociedade e com cultura. Abreu e Masetto, (1990, p. 115), afirma que,

“É o modo de agir do professor em sala de aula, mais do que suas características de personalidade que colabora para uma adequada aprendizagem dos alunos; fundamenta-se numa determinada concepção do papel do professor, que por sua vez reflete valores e padrões da sociedade”. (ABREU & MASETTO, 1990, p. 115)


Segundo Freire,

“o bom professor é o que consegue, enquanto fala, trazer o aluno até a intimidade do movimento do seu pensamento. Sua aula é assim um desafio e não uma cantiga de ninar. Seus alunos cansam, não dormem. Cansam porque acompanham as idas e vindas de seu pensamento, surpreendem suas pausas, suas dúvidas, suas incertezas”. (FREIRE, 1996, p.96)

Ainda segundo o autor,

“o professor autoritário, o professor licencioso, o professor competente, sério, o professor incompetente, irresponsável, o professor amoroso da vida e das gentes, o professor mal-amado, sempre com raiva do mundo e das pessoas, frio, burocrático, racionalista, nenhum deles passa pelos alunos sem deixar sua marca”. (FREIRE, 1996, p.96)

Apesar da importância da existência de afetividade, confiança, empatia e respeito entre professores e alunos para que se desenvolva a leitura, a escrita, a reflexão, a aprendizagem e a pesquisa autônoma; por outro, SIQUEIRA (2005: 01), afirma que os educadores não podem permitir que tais sentimentos interfiram no cumprimento ético de seu dever de professor. Assim, situações diferenciadas adotadas com um determinado aluno (como melhorar a nota deste, para que ele não fique de recuperação), apenas norteadas pelo fator amizade ou empatia, não deveriam fazer parte das atitudes de um “formador de opiniões”.

Logo, a relação entre professor e aluno depende, fundamentalmente, do clima estabelecido pelo professor, da relação empática com seus alunos, de sua capacidade de ouvir, refletir e discutir o nível de compreensão dos alunos e da criação das pontes entre o seu conhecimento e o deles. Indica também, que o professor, educador da era industrial com raras exceções, deve buscar educar para as mudanças, para a autonomia, para a liberdade possível numa abordagem global, trabalhando o lado positivo dos alunos e para a formação de um cidadão consciente de seus deveres e de suas responsabilidades sociais.


2.5 O PAPEL DO EDUCADOR COMO MEDIADOR DAS RELAÇÕES HUMANAS E SOCIAIS

Por mediação se entende a atuação do professor como intermediário entre a informação a oferecer e a aprendizagem dos alunos. É o momento em que o professor age como facilitador das ideias dos alunos, fazendo a ligação entre ensino e aprendizagem. De acordo com ROCA (1999,p. 94) mediar é situar-se no meio [...] e, em suma fazer-se ponte, abaixar-se para que os outros cresçam, estabelecer vínculos, tanto mais necessários quanto maior for o abismo que é preciso transpor.

Facilmente se percebe que numa sala de aula há diferenças de ordem familiar, cultural, intelectual, financeira, etc. que revelam a complexidade do contexto social do qual estes alunos procedem. Sendo, é necessário o papel do educador como mediador das relações sociais. Cabe ao educador a criação de pontes, entre o saber e o aluno, proporcionando, desse modo, o pleno acesso ao conhecimento apresentado.

No processo de mediação o professor, inicialmente, traz à tona o conhecimento do aluno em relação ao assunto abordado. Geralmente, se verifica que tal conhecimento trata-se de percepções parciais sobre o assunto, que deve ser incorporado às novas informações passada pelo professor, resultando num conhecimento mais abrangente com a participação do aluno. Segundo Augusto Cury:

“Em muitas escolas, os alunos, os professores e o conhecimento que transmitem estão em mundos diferentes. Um não entra no mundo do outro. Os alunos não entram na história dos professores, os professores não entram na história dos alunos, e ambos não entram na história do conhecimento...” (CURY, 2001, p. 166).


Por isso, para que não haja essa discrepância em relação ao objetivo da aprendizagem, o professor que exerce o ensino pautado na mediação, apresentará, segundo Haidt, duas funções em relação aos alunos:

“Uma função incentivadora e energizante, pois ele deve aproveitar a curiosidade natural do educando para despertar o seu interesse [...] uma função orientadora, pois deve orientar o esforço do aluno para aprender, ajudando-o pensar a construir o seu próprio conhecimento”. (HAIDT, 2003, p. 57).


Isto significa que no papel de mediador, o professor não transmite conceitos e informações de maneira pronta, acabada. Antes, cria o que HAIDT (2003, p. 205) chama de “situações de ensino”, nas quais o aluno observa, coleta materiais, informações e experimenta para só então sistematizá-los e chegar às conclusões que lhe permitirão elaborar conceitos e princípios.

Dessa maneira, tendo em mente essa “reciprocidade pedagógica” permeada de simpatia e respeito mútuo, o que segue é uma construção natural do saber. Nesse processo, o professor tem um volume de conhecimentos a compartilhar com os educandos; conceitos que deseja serem plenamente compreendidos por eles. No entanto, não deve trabalhar sozinho, pois após apresentar de maneira clara o que pretende alcançar irá procurar despertar os alunos para que dêem a sua parcela de cooperação; o ideal é que não haja um monólogo nesse processo (somente o professor a falar), “o maior trabalho de um mestre não é fornecer respostas, mas estimular seus alunos a desenvolver a arte de pensar. Todavia, não há como estimulá-los a pensar se não aprenderem sistematicamente a perguntar e duvidar” (CURY, 2001, p.162).

Para Libâneo o professor deve provocar a interação, isto é, parar para ouvir seus alunos, seus questionamentos e dúvidas, pois muito do que lhe disserem ou perguntarem servirá para analisar as suas deficiências e, até mesmo perceber o crescimento em relação ao assunto em estudo (LIBÂNEO, 1994, p. 250).

O professor em seu papel de mediador promove a cidadania e a democracia, levando em consideração a participação do outro, e, assim contribui significativamente para a criação de um mundo melhor.
REFERÊNCIAS


ALVES, Rubem. Conversas com quem gosta de ensinar, 27 º ed. São Paulo: Cortez, 1993.

ARAÚJO, Inês Lacerda. Introdução à filosofia da ciência. 3 ed. Curitiba: Ed. UFPR, 2003.

BRASIL. Ministério da Educação e do Desporto. MEC,1998.

CHAUI, Marilena. Convite à filosofia. 13. ed. São Paulo: Ática, 2004.

CORDI, Cassiano. Para filosofar. São Paulo: Scipione, 2007,

DEMO, Pedro. Lei de Diretrizes e Bases. São Paulo: Moderna, 1996.

FELIPPI FILHO, Mario Cesar. Ser ou ter: eis a questão (1ª Parte). Artigo publicado no jornal O Correio do Povo, em 29 jul. 2011, edição 6.733, p. 3.

FREIRE, Paulo. Educação como prática da liberdade, Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1983

GARCIA, Regina Leite. Alfabetização dos Alunos das Classes Populares, 2ª ed. São Paulo: Cortez, 1992.

NEVES, Maria Aparecida Mamede. O Fracasso Escolar e a busca de soluções alternativas, Rio de Janeiro: Vozes, 1993.

OLIVEIRA, João Batista Araújo. A Pedagogia do Sucesso, São Paulo: Saraiva 1999.
 PASSOS, Elizete. Ética nas organizações. 1.ed., São Paulo: Atlas,2007.
PILLETI, Nelson. Sociologia da Educação. 5ª ed. São Paulo: Ática, 1987.

PONCE, Aníbal. Educação e Luta de Classes, 9ª ed. São Paulo: Cortez, 1989.

SANTOS, Boaventura de Souza. Um discurso Sobre as ciências. São Paulo: Cortez, 2003.

SAVIANI, Demerval. Escola e Democracia, 2ª ed. São Paulo: Cortez, 1984.

TELLES, Fídias. Filosofia Para o Século XXI”. Erechim: Gráfica e Editora São Cristóvão, 2003.
_____________. Dimensões da Angústia Humana. : Gráfica e Editora São Cristóvão, 2004.

VALLS, Álvaro L. M. O Que é Ética?. 9 ed. São Paulo: Brasiliense,1994.

WIESE, Werner. Ética fundamental: critérios para crer e agir. São Bento do Sul: União Cristã. 2008.


A INFLUÊNCIA DA CULTURA AFRO NO BRASIL

1 PANO DE FUNDO HISTÓRICO DO DESCOBRIMENTO DO BRASIL
É impossível falar das raízes da cultura brasileira sem mencionar seus vários referenciais culturais. Até o final do século XV o Brasil ainda não tinha sido “descoberto”, portanto, a cultura por aqui era cem por cento indígena. Exatamente no ano da passagem do século XV para o século XVI, toda a tradição cultural dessas terras que posteriormente passaria a se chamar Brasil começou passar por um processo de transformação. Essa transformação não pode ser vista somente como boa, tampouco como ruim. Qualquer tentativa de avaliação no sentido qualitativo seria um tanto quanto precipitada. Toda e qualquer história de uma civilização, seja ela qual for, é composta por vários olhares, principalmente quando esse processo se dá de forma imposta, como foi o assim chamado “descobrimento” do Brasil.
Sérgio Buarque de Holanda, em seu livro Raízes do Brasil, já no início do primeiro capítulo, diz o seguinte:
“A tentativa de implantação da cultura europeia em extenso território, dotado de condições naturais, se não adversas, largamente estranhas à sua tradição milenar, é, nas origens da sociedade brasileira, o fato dominante e mais rico em consequências. Trazendo de países distantes nossas formas de convívio, nossas instituições, nossas ideias, e timbrando em manter tudo isso em ambiente muitas vezes desfavorável e hostil, somos ainda hoje uns desterrados em nossa terra. Podemos construir obras excelentes, enriquecer nossa humanidade de aspectos novos e imprevistos, elevar à perfeição o tipo de civilização que representamos: o certo é que todo o fruto de nosso trabalho ou de nossa preguiça parece participar de um sistema de evolução próprio de outro clima e de outra paisagem.” (HOLANDA, 1963 p. 3)
Essa citação em particular remete a história do Brasil exatamente ao ponto inicial de colonização e imigração; ao momento exato em que a cultura indígena, primitiva e tribal entra em contato com a cultura europeia, civilizada e colonizadora. Podemos assim dizer que o germe cultural brasileiro nasce exatamente nesse momento de confronto entre essas duas formas tão distintas de culturas. Vale lembrar ainda que não estamos falando de uma cultura europeia tradicional, a oficial por assim dizer, herdeira do Império Romano e toda sua tradição cultural milenar. Estamos falando da cultura ibérica. Portugal, juntamente com Espanha e Rússia estão situados geograficamente numa zona fronteiriça da Europa com outras regiões do mundo, numa espécie de ponte de transição cultural entre a Europa e o restante dos continentes conhecidos até então. Até o início da navegações esses países à margem da cultura europeia eram insignificantes em se tratando de inserção no continente europeu. Somente a partir do início das navegações essa realidade começa a mudar e Portugal, juntamente com a Espanha adentra de forma mais direta na Europa enquanto entidade cultural. (HOLANDA, 1963 p. 4)
Justamente por esses fatores relacionados à “marginalidade portuguesa”, em relação ao restante da Europa, unida às suas perícias em navegações, permitiu com que Portugal tivesse acesso ao continente Africano. Sua posição geográfica, situada no litoral lhe favoreceu no exato momento em que a Europa, influenciada pelo renascimento e humanismo, buscava se aproximar com outros continentes. Seu interesse em produtos asiáticos e Africanos possibilitou essa aproximação. (HOLANDA, 1963 p. 4) É justamente nesse ponto que Portugal sai da marginalidade e se torna o ponte entre esses mundos. Hoje conjectura-se que a “descoberta” do Brasil não foi exatamente como é contada nos livros de história. Afirma-se que já havia um interesse nas terras além do Atlântico. Num primeiro momento pode até parecer não sendo de crucial relevância falar dessa referência cultural específica, uma vez que o tema remete diretamente à influência da cultura africana em nosso país. Porém, um olhar mais atento ao tema não pode deixar passar despercebido a palavra “influência”. Quem influencia sempre exerce essa influência sobre alguém. No caso específico em questão as nossas três matizes culturais se cruzam e entrelaçam. Nesse entrelaçar cada vertente cultural absorve e transforma elementos próprios da outra vertente. Esse processo iniciado lá em mil e quinhentos vem sendo desenvolvido ao longo de mais de cinco séculos de história. Tivemos outros ondas migratórias em nosso país, cada uma delas trazendo elementos culturais próprios de seus países de origem. Graças a essa miscelânea cultural somos hoje um dos povos com uma bagagem cultural das mais diversificadas. Temos os mais diversos fenótipos brasileiros. Existem brasileiros com todas as cores e caras possível.
Com a chegada dos português veio também a exploração das terras por aqui. A princípio foram feitas algumas tentativas de explorar a mão de obra indígena, o qual não se mostrou nada disposto a cooperar com os brancos. Os portugueses, ao se depararem com a dificuldade em “adestrar” indígenas não tiveram outra saída a não ser trazer os negros da costa africana, já conhecidos por eles, os quais passaram a ser comercializados e escravizados no cultivo da cana-de-açúcar. Esses negros trazidos da África, além de terem conhecimento das técnicas agrícolas europeias tinham maior resistência imunológica e às doenças dos brancos. Além disso, por não terem o conhecimento geográfico das terras brasileiras nem o domínio das técnicas de sobrevivência na floresta, se tornavam muito mais vulneráveis a dominação do que os povos nativos. (PELLEGRINI, DIAS, GRINBERG V. 2, P. 101) Esse negro que, comprado em sua terra de origem, transportado de forma cruel e desumana, e revendido ao chegar aqui no comércio escravo, foi o terceiro elemento básico da formação étnica brasileira. Se tornando assim um dos três elementos de formação étnico do povo brasileiro nos três séculos seguintes. Somente a partir do século XIX é que, com a chegada da família real ao Brasil houve gradativamente a entrada de outros imigrantes em nosso território, o que permitiu uma nova reestruturação da formação étnica brasileira. Entre esses novos imigrantes vieram italianos, alemães, japoneses, libaneses e outros povos, cada um com seus costumes e tradições, mas nenhum deles teve tanta influência como os representantes das três matrizes iniciais da nossa formação enquanto povo brasileiro, tanto geneticamente quanto culturalmente.
Maciçamente falando, os escravos eram utilizados em sua maioria nas lavouras de cana-de-açúcar. Porém, muitos deles também foram utilizados nos setores urbanizados da sociedade brasileira de então. As funções variavam de mensageiros da elite à construção de estradas e edifícios. (PELLEGRINI, DIAS, GRINBERG V. 2, p. 107). Uma vez que, ao chegarem aqui, os escravos negros foram colocados em todos os setores de trabalho, é fácil entender porque influenciaram de forma tão significativa a sociedades brasileira. Essa influência é percebida em todos os setores da cultura brasileira e seus traços são percebidos na música, na religião, na culinária, no folclore e nas festividades populares.
É difícil falar com precisão sobre a quantidade de escravos que foram trazidos ao Brasil no período da escravidão, uma vez que, a partir da abolição muitos documentos foram destruídos. Mas estima-se que foram trazidos pra cá aproximadamente 3,6 milhões de africanos para serem vendidos como escravos. Em suas terras de origem eles tinham suas expressões religiosas, seus ritos e suas divindades. Chegando aqui no Brasil eram batizados forçadamente pelos padres jesuítas e em seguida recebiam uma rápida catequização, na qual “aprendiam a se comportar como cristãos” e recebiam o “direito” de assistir as missas e rezarem. Doutrinar pessoas religiosamente falando não é tarefa fácil, uma vez que implica em interesse da parte do doutrinado e tempo para assimilação do conteúdo. Pelo menos duas implicações decorrem dessa doutrinação forçada. Primeiro, os escravos não tinham o mínimo interesse em serem doutrinados na religião de quem os maltratava e os expunham ao risco constante de vida. Segundo, os escravos eram vistos como mercadoria, tinham um preço, o que demandava o recuperação do investimento inicial. A partir dessas duas implicações pode-se deduzir que esse doutrinamento no cristianismo era extremamente superficial e as crenças religiosas que trouxeram da África não foram abandonadas em momentos algum. Porém, com o intuito de não entrarem em conflito com os senhores feudais, cristãos, diga-se de passagem, a saída foi misturar elementos afro-religiosos que estavam incutidos em suas crenças religiosas com elementos do catolicismo, dando assim origem a uma forma bem peculiar de sincretismo religioso. (DROOGERS, p. 10)
Elementos desse sincretismo inicial ganharam força nas mais variadas expressões da religiosidade brasileira. Santos católicos foram travestidos de Orixás. O exemplo mais concreto dessa mescla é o São Jorge, o qual, com sua espada empunhada é comparado e muitas vezes identificado com Ogum, o orixá do ferro e da guerra. Maria, por sua vez, a mulher mais importante para o catolicismo recebe algumas pequenas adaptações e passa a ser cultuada como sendo Iemanjá. Esses são apenas duas entre tantas outras formas de adaptações entre figuras importantes nas duas tradições religiosas do período da escravidão.
Essa religiosidade sincrética surgida de forma bem peculiar aqui no Brasil acabou ao longo dos séculos influenciando diversas expressões religiosas. O que era no início apenas uma forma sútil de culto foi se transformando gradativamente em novas religiões como candomblé na Bahia, o xangô no Recife, o batuque em Porto Alegre e tantas outras vertentes, cada uma variando de acordo com a origem tribal de seus fundadores. A partir do início do século XIX, quando a língua portuguesa passou a ser a língua dos cultos, mulatos e brancos começaram a frequentar as reuniões, o que ocasionou numa perda da identidade caracteristicamente tribal dos povos africanos. O resultado disso foi um processo de abrasileiramento da religiosidade africana e o surgimento, no início do século XX, de religiões tipicamente brasileiras, onde a umbanda é considerada a maior vertente desse período de adaptações à realidade urbana de então. (DROOGERS, p. 15) Parece óbvio que, com o fim da escravidão e com a liberdade de culto as religiões brasileiras seguissem cada uma seu rumo, não havendo a necessidade de sincretismo. Mas não é bem assim. As influências estavam muito bem estabelecidas no inconsciente coletivo brasileiro. Não era mais possível separar os elementos característicos de uma e outra expressão religiosa. É muito comum encontrar cristãos que participem regularmente de cultos afros e vice-versa.
O espiritismo Kardecista, com origem europeia, tão difundido entre a elite artística brasileira e na classe média em geral, também sofreu fortíssimas influências das religiões de origem africana. Até mesmo no pentecostalismo brasileiro, com suas tradições fortemente arraigadas no protestantismo europeu e principalmente norte americano tem fortíssimas influências das religiões e cultos afros. A principal característica, típica das religiões afros é a possessão de espíritos e seu consequente exorcismo por parte de seus líderes. Não precisa ser cientista religioso para perceber a relação intrínseca entre essas formas teoricamente divergentes de religião. Sociologicamente falando, o pano de fundo das expressões religiosas atuais e suas influências africanas é o mesmo da época das escravidão. Os antídotos aos males sociais de antes e de agora são os mesmos. A religião serve como fonte de abrigo e de consolo a um povo humilde que sofre e não tem onde nem a quem recorrer. (DROOGERS, p. 53)
A religião é apenas uma das ramificações culturais em que a cultura africana impregnou sua marca. Nossas expressões artísticas carregam em seu DNA as marcas inquestionáveis da cultura africana. Suas cores, movimentos, formas e ritmos são muito marcantes. Na dança temos as mais variadas expressões e ritmos. O maior evento brasileiro é o carnaval. Esse evento anual é talvez a expressão máxima de nossa cultura na forma de música, dança, folclore, trajes e ritmo. Mas não apenas isso. Todos os principais gêneros da música brasileira são nitidamente marcados pela musicalidade africana. Mesmo estilos mais eruditos como o chorinho e a MPB brasileira estão impregnados dessa marca tão característica que é a cultura africana.
Outra característica muito marcante da cultura africana no Brasil é a questão dos diferentes temperos dados à nossa culinária. Eles tiveram a capacidade de mesclar coisas da cozinha indígena com a europeia e transformar em comida brasileira. O acarajé, o vatapá, o bobó, a feijoada são pratos mais famosos da culinária afro-brasileira. Tem também o azeite de dendê, comum na culinária baiana. Além disso, o coco, a banana, a pimenta malagueta, o café são produtos oriundos das terras africanas. Esses no entanto são os mais populares, mas existem muitas outras variantes regionais da cultura culinária africana, dependendo de seu lugar de origem e da localização geográfica em que foram estabelecidos aqui no Brasil as adaptações dos ingredientes básicos e dos temperos foram acontecendo.
De forma resumida e sintética, essas são apenas algumas das influências da cultura africana, chegada até nós por meio dos negros escravos aqui no Brasil. Mas há muito ainda que ser dito. Muitas vezes esses elementos são esquecidos, outras vezes são negados categoricamente, numa tentativa de suprimir e força dessa expressão cultural que é ao mesmo tempo o orgulho e a vergonha de nosso país. Tem-se orgulho da tradição cultural africana e de tudo o que ela representa de festivo, de bonito e de alegre, porém, tenta-se esconder o processo brutal, cruel e desumano com que ela chegou até nós. Nesse sentido a nação brasileira tem uma dívida muito grande com esse povo que veio contra sua vontade até aqui. A forma mais óbvia de reparação é aceitar seus valores, suas tradições e suas marcas inegáveis em nossa cultura enquanto povo brasileiro, mascado por tantas vertentes e expressões culturais.
HOLANDA, Sérgio Buarque. “Raízes do Brasil”. 26. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
PELLEGRINI, Marco; DIAS, Adriana Machado; GRINBERG, Keila. Coleção: Novo Olhar, V. 2. São Paulo: Editora FTD, 2010.

DROOGERS, ANDRÉ. E a Umbanda? São Leopoldo: Editora Sinodal, 1985.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

A MOTOCICLETA, O FACEBOOK E A TRANSITORIEDADE DAS RELAÇÕES SOCIAIS




            Nesses tempos de redes sociais, quase todos tem dezenas de amigos, mesmo que na maioria das vezes nem sequer se conheçam. Amizades “virtuais” são mais fáceis de se construir e manter do que as “reais”. A distância mascara a realidade. Fotos retocadas são postadas todos os dias, pensamentos de outros são colocados como próprios, a pseudoepígrafe se tornou muito comum nas redes sociais, mas falta um vínculo concreto com a realidade. Pessoas que não vemos a anos de repente postam fotos de anos atrás, um retoque aqui, outro ali e pronto, temos a mais nova “modelo virtual”.
Tempos atrás encontrei o perfil de uma antiga conhecida, no álbum várias fotos e no perfil a atualização do status de relacionamento indicava que estava separada. Essas fotos não eram atuais, mas quem se importa, a intenção era “vender o produto”, a alma do negócio é a propaganda. Alguém diria que é golpe contra o consumidor (uso a linguagem mercadológica por uma razão óbvia: a exposição intencional era tal qual a de um produto).
A bastante tempo sou usuário da internet de forma geral, porém, como rede social meu uso é bem recente. Meu perfil no face é do final do ano passado. Além do face faço uso de outros sites também. A princípio tinha bastante restrições quanto a essa forma particular de uso, porém, com o tempo fui me acostumando e hoje diria que tenho dificuldades em ficar algum tempo isento dessa maneira de uso da internet. Estou cadastrado no facebook há mais ou menos um ano. Nesse período reencontrei alguns amigos que não via há um bom tempo, assim como fiz vários outros. Tem também o típico caso de pessoas que conhecia há anos, mas que, por um motivo ou outro não mantinha vínculos além de um oi ou um bom dia, mas que, através das redes sociais comecei a conversar com certa frequência e hoje converso até mesmo pessoalmente. Por outro lado as redes sociais já me trouxeram problemas também. Já perdi amizade bem estruturada devido a uma postagem ou comentário no facebook. Ocorreu também de deletar e ser deletado impiedosamente, sem nem sequer ter um motivo para isso pessoas que conheci só pela internet.
Por essas e outras razões muitas críticas são feitas em relação a volatilidade e superficialidade das relações nas redes sociais e que acabam também afetando as relações interpessoais concretas. Muitos dos críticos desse tipo de relações vêem a internet como um limitador das relações autênticas, om que é verdade em partes. “Na rede social, é mais fácil se relacionar do que no real, e isso se dá por vários motivos: você pode idealizar quem é e não se mostrar, pode criar um personagem de acordo com o que acredita que o outro espera de você, é possível esconder sentimentos e mostrar apenas o que se quer. Quando algo o desagrada, pode simplesmente sair ou parar a conversa e não precisa enfrentar situações desagradáveis ou pessoas que não deseja ter contato. É você quem controla a sua rede de amigos e o que as pessoas têm acesso, é uma falsa sensação de controle da própria vida”. Pelo menos é o que afirma Mônica Chaperman, psicóloga escolar. Ainda, segundo a psicóloga, “o perigo é não conseguir mais se adequar a realidade e viver a virtualidade no dia a dia. Os adolescentes fazem muito isso. Os amigos são mais virtuais. É comum na roda de amigos, cada um estar usando o seu celular, até conversam entre si e sequer se olham. Estão conectados, mas só que em si mesmos. Será que de verdade estão em relação?", questiona ela.
Dilton Ribeiro do Couto Junior é pedagogo, mestre e doutorando em educação e pesquisa fenômenos da cibercultura. relaciona a rede social sob outro ponto de vista: "As redes sociais e os diversos espaços físicos das cidades são indissociáveis. Digo isso porque as relações nos espaços físicos podem ser potencializadas nas redes sociais, e o contrário também é possível, muitos pessoas interagem no Facebook também para marcar encontros com seus amigos fora da rede", opina.
Realmente, as observações são válidas, é preciso ter clareza de que há uma linha muito tênue entre o uso saudável e o doentio desses tipos de mídias. Mesmo os relacionamentos reais, ou seja, aqueles fora das redes também tem seus problemas. Hoje a tendência de muitos críticos é de uma certa demonização das redes sociais, como se elas fossem a razão de toda liquefação das relações dos tempos modernos. Mas, mesmo antes das redes sociais as pessoas já vinham num processo de isolamento do mundo e das pessoas ao redor. É muito fácil e simplista dizer que as redes socais são responsáveis pelo isolamento das pessoas. Eu mesmo, muito antes da internet já mantive relações bem intensas com pessoas que hoje em€ dia não significam muito pra mim e vice versa. Muitas pessoas as quais fizeram parte de minha vida e eu da delas hoje nem sei se estão vivas ou não. E essas desconexões com tais pessoas não aconteceram simplesmente apertando o batãozinho de Ok para excluí-las, simplesmente aconteceram, sem nenhuma programação prévia. Há outros casos ainda de pessoas que nunca vi pessoalmente ainda, mas tenho contatos quase que diários, diria até que tenho vínculos mais profundos com elas do que tenho com pessoas que conheço pessoalmente há anos.

Sou motociclista há bons anos. A motocicleta me ensinou muitas coisas, entre elas o fato de que o motociclista é filósofo nato. Sabe que as coisas mudam muito rápido. Na próxima curva, no próximo metro de asfalto ou estrada pode estar a linha entre o correr livremente e uma cadeira de rodas, entre o destino de viagem e o leito de uma UTI, entre a vida e a morte. Ser motociclista é estar exposto o tempo todo a um destino do qual se tem pouco ou nenhum controle. Mas na verdade a motocicleta ensina isso por analogia, pois não há nada sob controle sob o sol, tudo é transitório. Como já dizia o pregador do Eclesiastes há mais de dois milênios: “vaidade das vaidades, tudo é vaidade”! Porém, apesar da transitoriedade das coisas, sempre fica algo de concreto, de real e essa concreticidade pode estar muitas vezes no fundamentada no abstrato, e esse abstrato/concreto é a necessidade do outro e o reconhecimento e a esperança de que as relações, por mais que possam estar sujeitas a liquefação muitas vezes são sólidas, sendo virtuais ou não...