Sou de um tempo em que Católicos e evangélicos se odiavam e vivam se digladiando mutuamente. Calúnias e difamações entre uns e outros eram bastante comuns. Os anos passaram, as diferenças foram amenizando e por incrível que pareça até respeito surgiu entre ambos os lados com relação ao outro. No seio da igreja católica surgiu a renovação carismática, com suas ênfases sobre a espiritualidade muito semelhante à dos pentecostais. Os hinos, que hoje são chamados por todos de louvores são na maioria das vezes os mesmos. Marcelo Rossi grava músicas de cantores evangélicos com uma naturalidade de quem as compõe. “Crentes” e católicos convivem harmoniosamente uns com os outros sem nenhum problema, a não ser umas afirmações isoladas aqui e outras ali. Isso é muito bom, indica que os cristão amadureceram razoavelmente e reconhecem no outro traços de uma mesma religiosidade que tem suas raízes no mesmo fundador. Até mesmo entre os líderes católicos e evangélicos existe uma certa proximidade e respeito, mas isso no que concerne ás questões de interesse mútuo, como sua "luta" contra o aborto, a homossexualidade e outros assuntos de interesses pertinentes âmbos os lados.
Entretanto, essa “convivência amigável” se dá apenas no âmbito da informalidade, onde as ovelhas de um e outro pasto se misturam no cotidiano e tem uma convivência razoavelmente pacífica. Formalmente falando, um ecumenismo (movimento que visa à unificação das igrejas cristãs) entre as várias denominações cristãs está muito distante de acontecer e provavelmente nunca irá acontecer. Qualquer tentativa formalizada nesse sentido exclui imediatamente os católicos. Nos evangélicos entre si parece mais fácil uma admissão formal entre as diferentes manifestações. Os membros da Batista por exemplo não tem problema algum em frequentar um culto na Igreja Assembleia de Deus e vice-versa. Essas ovelhas conseguem conviver pacificamente apesar das divergências históricas de mais de um século. Até aqui tudo bem. Porém, quando se trata da simpatia de um líder renomado de uma denominação em relação ao outro a coisa muda de figura.
Tempos atrás dediquei algumas horas no Youtube assistindo sessões públicas de ofensas e acusações mútuas entre os mais renomados líderes evangélicos desse país. Cada qual num empenho dantesco em tripudiar seu inimigo/concorrente diante das câmeras. Silas que odeia Caio Fábio que odeia Bispo Valdomiro que odeia Edir que odeia casal Hernandes que odeia... Enfim, um ciclo interminável de ódio, ofensas e xingamentos como: vagabundos, safado, ladrão, traidor, canalha, são normais. Fica a pergunta: porque isso acontece justamente entre aqueles que deveriam convergir no anúncio da mensagem em que todos se dizem interessados em levar ao mundo? Porque os líderes evangélicos se odeiam tanto e se digladiam mutua e publicamente? Será que seus interesses dizem respeito ao que consideram ser a verdade suprema do Reino de Deus?
Na cabeça de um crente comum, bem intencionado, fiel a seu Deus e à sua fé surgem algumas questões e suas explicações possíveis. Entre elas fico com duas possíveis. Primeira explicação: estão todos errados; segunda explicação, estão quase todos errados e só um deles certo. Beleza, assim ficou fácil. Se um deles está certo nada está perdido, é só escolher qual deles está certo e ponto final. Porém fica a pergunta: qual deles está certo, se é que alguém está? Difícil saber, uma vez que todo esse ódio declarado publicamente não tem nada a ver com cristianismo, uma vez que o fundador do cristianismo e seus primeiros divulgadores não pregavam muito menos cultivavam esse ódio por seus inimigos.
Muitos cristãos fieis acabam entrando nessa briga e assumindo um posicionamento bem definido em favor deste ou daquele líder. Muitas vezes esse posicionamento se dá de forma duradoura e até mesmo fiel. Outras vezes, em curto prazo se decepcionam e vão atrás de outro líder, pelo qual se posicionam novamente da mesma forma, por mais um tempo, até que se deparem com uma segunda decepção e assim sucessivamente.
Diante de tantas mentiras, brigas, descaso, desonestidades e tantas outras formas de escândalos envolvendo tais líderes está surgindo uma nova forma de ser igreja. São pessoas cansadas com todo esse circo dos horrores em que tantos palhaços se digladiam mutuamente que resolveram formam em pequenos círculos, longe dos templos e de seus algozes. A esse movimento que vem ganhando cada vez mais força e se propagando na informalidade se atribuiu de forma até mesmo pejorativa o título de “os sem igreja”. Esses movimentos não são muito estruturados teologicamente, porém todos eles tem alguns pontos em comum, entre eles uma visão bem coerente, segundo a minha compreensão a respeito das igrejas de massas e de suas principais ênfases, as quais ganha destaque a questão do dízimo. São pessoas cansadas de serem vítimas dos mercadores da fé, onde nada mais importa a não ser a lá e a gordura de suas ovelhas. Essa nova modalidade de ser igreja não tem nenhuma motivação teológica complexa, como aconteceu com vários movimentos surgidos no seio da igreja desde que ela se estruturou de forma política e organizada, lá por volta do quarto século. Tem a ver com uma questão bem pragmática. As ovelhas se sentiram sozinhas e exploradas e resolveram por conta própria se rebelarem contra seus pastores. Diferente do movimento de reforma protestante surgido no século dezesseis, onde grandes líderes como Lutero e Calvino deram o ponta pé inicial e o movimento se propagou e se articulou de forma organizada nos séculos seguintes.
Como teólogo poderia fazer uma reflexão teológica com argumentos bíblicos e exegéticos. Mas seria muito óbvio e apenas uma visão diferenciada partindo do mesmo referencial do qual todos esses líderes se utilizam, que é a Bíblia. Minha referência hermenêutica a tal situação tem como base um pequeno trecho de um livro de um dos homens mais odiados de todos os tempos pelos cristãos de forma geral. Uns dois meses atrás uma amiga me emprestou um de seus livros chamado Humano, demasiado humano, um livro para espíritos livres, de Friedrich Nietzsche. Por se tratar de um livro de aforismos selecionei algumas partes que considero mais importantes, as quais estou lendo de forma bem leve e descontraída, selecionando as partes que mais me chamam a atenção. Entre os poucos de seus livros que li a metodologia por mim utilizada foi a mesma. Nenhum compromisso em aprofundar-me na obra. Devo reconhecer que essa tarefa seria dificílima e exigiria de mim muito mais tempo e paciência além do que posso e quero no momento. Além do mais, qualquer tentativa em aprofundá-lo seria infrutífera e desgastante se não estivesse realmente disposto a me entregar de corpo e alma a uma tarefa dessa grandeza. Nesse rítmo leve e descontraido, nos últimos quinze anos consegui ler apenas quatro de suas principais obras. Nesse último adotei uma metodologia diferente. Por se tratar de aforismos, o que permite uma leitura não linear, como os livros são escritos convencionalmente, escolhi os temas de forma aleatória, priorizando por ordem de interesse. Hoje, ao folhea-lo, me deparei com o seguinte tema no terceiro capítulo: “A vida religiosa”. O primeiro parágrafo desse capítulo, o aforismo 108, onde diz o seguinte:
“A dupla luta contra o infortúnio. – Quando um infortúnio nos atinge, podemos superá-lo de dois modos: eliminando a sua causa ou modificando o efeito que produz em nossa sensibilidade; ou seja, reinterpretando o infortúnio como um bem, cuja utilidade talvez se torne visível depois. A religião e a arte (e também a filosofia metafísica) se esforçam em produzir a mudança da sensibilidade, em parte alterando nosso juízo sobre os acontecimentos (por exemplo, com ajuda da frase: "Deus castiga a quem ama"), em parte despertando prazer na dor, na emoção mesma (ponto de partida da arte trágica). Quanto mais alguém se inclina a reinterpretar e ajustar, tanto menos pode perceber e suprimir as causas do infortúnio; o alívio e a anestesia momentâneos, tal como se faz na dor de dente, por exemplo, bastam-lhe mesmo nos sofrimentos mais graves. Quanto mais diminuir o império das religiões e de todas as artes da narcose, tanto mais os homens se preocuparão em realmente eliminar os males: o que, sem dúvida, é mau para os poetas trágicos - pois há cada vez menos matéria para a tragédia, já que o reino do destino inexorável e invencível cada vez mais se estreita, - mas é ainda pior para os sacerdotes: pois até hoje eles viveram da anestesia dos males humanos”.
É óbvio que a crítica de Nietzsche ao cristianismo, de forma geral não é assim tão simplista. Os motivos estão relacionados a todo um complexo sistema moral, elaborado ao longo dos séculos, no qual, segundo ele, toda a imanência da vida foi transferida para a transcendência. Nesse sentido, segundo ele, todo o prazer pela vida terrena foi condenado pela igreja como contraproducente a vida terrena, a qual suplantava a verdadeira vida, a vida eterna. O próprio Lutero confrontou a mesma situação 3 séculos antes.
Tendo em vista a vastidão da crítica Friedrich Nietzschehiana ao cristianismo faz-se necessário delimitar ao máximo o ponto de partida de minha análise do aforismo cento e oito. O ponto exato que interessa aqui é o seguinte: “Quanto mais diminuir o império das religiões e de todas as artes da narcose, tanto mais os homens se preocuparão em realmente eliminar os males: o que, sem dúvida, é mau para os poetas trágicos - pois há cada vez menos matéria para a tragédia, já que o reino do destino inexorável e invencível cada vez mais se estreita, - mas é ainda pior para os sacerdotes: pois até hoje eles viveram da anestesia dos males humanos”.
Verdade seja dita. Nietzsche estava extremamente correto nesse trecho em particular. Com incrível poder de síntese Nietzsche ataca de modo contundente o sistema religioso. Retomando a ideia de Marx da religião como o ópio do povo ele diz que o império religioso, tal como foi construído ao longo dos séculos, representado pelos seus líderes, vive e se expande às custas da miséria humana e de seus pseudo-antídotos contra essas mesmas misérias. Segundo sua crítica, a religião, ao oferecer alivio momentâneo às dores e angústias humanas tiram de foco a verdadeira natureza dessas dores, evitando assim um diagnóstico autêntico, assim como a possível cura para esses males.
Não é exatamente isso que todos esses líderes estão oferecendo ao povo? Cura, bênçãos, saúde, riqueza e felicidade são apenas algumas das recompensas espirituais ao povo. O difere parcialmente é que agora as bênçãos se dão na vida terrena. Não precisa morrer para desfrutar do paraíso, afinal, ele está bem aqui e agora, acessível inicialmente por apenas dez por cento de seu salário, podendo se estender, num ato incrível de fé a noventa por cento, ou quem sabe ainda, na sua totalidade. Por que tanto desespero em ofender, afrontar, caluniar um ao outro? A razão é bem simples, quem afronta mais, convence melhor de que o outro está errado e consequentemente de que ele mesmo está correto, o que lhe renderá mais fiéis e em seguida mais dinheiro.
Tendo em vista a vastidão da crítica Friedrich Nietzschehiana ao cristianismo faz-se necessário delimitar ao máximo o ponto de partida de minha análise do aforismo cento e oito. O ponto exato que interessa aqui é o seguinte: “Quanto mais diminuir o império das religiões e de todas as artes da narcose, tanto mais os homens se preocuparão em realmente eliminar os males: o que, sem dúvida, é mau para os poetas trágicos - pois há cada vez menos matéria para a tragédia, já que o reino do destino inexorável e invencível cada vez mais se estreita, - mas é ainda pior para os sacerdotes: pois até hoje eles viveram da anestesia dos males humanos”.
Verdade seja dita. Nietzsche estava extremamente correto nesse trecho em particular. Com incrível poder de síntese Nietzsche ataca de modo contundente o sistema religioso. Retomando a ideia de Marx da religião como o ópio do povo ele diz que o império religioso, tal como foi construído ao longo dos séculos, representado pelos seus líderes, vive e se expande às custas da miséria humana e de seus pseudo-antídotos contra essas mesmas misérias. Segundo sua crítica, a religião, ao oferecer alivio momentâneo às dores e angústias humanas tiram de foco a verdadeira natureza dessas dores, evitando assim um diagnóstico autêntico, assim como a possível cura para esses males.
Não é exatamente isso que todos esses líderes estão oferecendo ao povo? Cura, bênçãos, saúde, riqueza e felicidade são apenas algumas das recompensas espirituais ao povo. O difere parcialmente é que agora as bênçãos se dão na vida terrena. Não precisa morrer para desfrutar do paraíso, afinal, ele está bem aqui e agora, acessível inicialmente por apenas dez por cento de seu salário, podendo se estender, num ato incrível de fé a noventa por cento, ou quem sabe ainda, na sua totalidade. Por que tanto desespero em ofender, afrontar, caluniar um ao outro? A razão é bem simples, quem afronta mais, convence melhor de que o outro está errado e consequentemente de que ele mesmo está correto, o que lhe renderá mais fiéis e em seguida mais dinheiro.
O triste disso tudo é que, além do povo ser subtraído por todos esses canalhas, seus reais problemas são camuflados e nem sequer são reconhecidas as suas mazelas. A igreja está a cada dia perdendo sua dimensão profética e se transformando numa feira das vaidades, onde o produto exposto é a fé, os mercadores são os pregadores, os templos são os shoppings e a Bíblia é um inútil código de defesa do consumidor, pois, se nada funcionar não se pode recorrer a ela, mas sim questionar a própria legitimidade da fé. Resumindo, um sistema perfeito de dominação e exploração do rebanho, o qual é ultrajado de forma cruel e calculista em sua dimensão mais profunda, que é a capacidade de acreditar, de sonhar e vislumbrar um mundo novo, cheio de possibilidades. É bem verdade que líderes assim vivem da anestesia dos males humanos, uma vez que não tem o mínimo interesse em combater suas causas, as quais de dão e se manifestam nas camadas mais distintas da sociedade. Não é interessante a eles combaterem as estruturas sociais corruptas vigentes, muito mais fácil e lucrativo é vender o analgésico genérico travestido de do fé.
Apesar de ter dito de forma generalizante faz-se necessário ser justo com tantos líderes cristãos, independente da denominação à qual pertencem, os quais não se renderam a esse sistema corrupto e enganador. Muitos ainda tem um compromisso maior com a vida, com a justiça e a dignidade humanas. Paralelamente a um sistema manipulador e enganoso sempre tem aqueles pastores (falo pastor não no sentido do título em si, mas no sentido metafórico, por isso incluo aqui muitos padres) dispostos a sacrificarem suas vidas pelas ovelhas se necessário for, mas sei que se trata de uma espécie em extinção. Difícil dizer até onde as coisas caminharão no ritmo em que estão, mas possivelmente os tais “desigrejados” sejam o espinho no pé desses líderes enganadores. Talvez o movimento responsável pela reorientação das igrejas venha justamente daqueles que agora a estejam rejeitando em sua forma institucionalizada, poderosa e corrompida.
* Por mais que no meu íntimo tendo a querer generalizar não o faço em respeito a alguns amigos que fazem parte desse meio, os quais tem caráter e inteligências infinitamente superiores a maioria massificadora dos líderes religiosos por esse Brasil afora.
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Jim Morrison (The Doors)
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