A ÉTICA E A
CIDADANIA NAS RELAÇÕES HUMANAS NO DECORRER DO PROCESSO HISTÓRICO COMO FONTE DE
PRODUÇÃO DE CONHECIMENTO
SOC
0055 – Disciplina Prática do Módulo III
O trabalho é acadêmico, mas não consta nome e dados por questões para preservar meu anonimato, caca alguem tenha interesse entrar em contato
RESUMO
Os valores éticos e morais precisam estar presentes
na vida do ser humano, pois só assim conseguirá viver plenamente em harmonia
dentro da sociedade a qual ele está inserido. O conceito etimológico da palavra
ética sofreu mudanças com o decorrer do processo histórico, e todas essas
mudanças foram significativas para a evolução do homem enquanto sujeito de
direitos e deveres.
Palavras-chave: Cidadania, Ética, Relações Humanas,
Sociedade.
1 INTRODUÇÃO
Atualmente vivemos uma
sociedade em crise, onde os valores morais e éticos estão cada vez mais
ausentes. A solidariedade e o amor ao próximo estão dando lugar às brigas,
preconceitos e diversas formas de violência. O cidadão brasileiro acorda
diariamente ouvindo notícias terríveis e desastrosas que acontecem em toda
parte do país, afetando direta ou indiretamente suas relações com as pessoas, é
isso que buscamos ressaltar neste pequeno artigo que dividimos em cinco partes.
Primeiramente visamos
analisar o conceito de ética e cidadania e a importância das relações éticas na
vida do ser humano. Num segundo momento mostrar a evolução da ética no decorrer
do processo histórico, bem como a cidadania neste processo.
Após discutirmos tais
conceitos, buscamos analisar o comportamento ético e a cidadania nas relações
sociais, bem como a ética e o exercício da cidadania como fonte da
aprendizagem, já que os valores familiares estão tão ausentes.
Para finalizar faremos
uma breve passagem sobre o papel do educador enquanto mediador das relações
sociais.
2 A ÉTICA
E A CIDADANIA NAS RELAÇÕES SOCIAIS NO DECORRER DO PROCESSO HISTÓRICO
O conceito de cidadania e ética renova-se a cada dia frente às
transformações sociais, principalmente diante das mudanças ideológicas e o
processo histórico vivenciado. Ser ético, agir dentro da moral e exercer nosso
direito de cidadão é nosso foco de estudo.
2.1 ÉTICA
E CIDADANIA E SUA IMPORTÂNCIA NAS RELAÇÕES SOCIAIS
A ética surgiu no seio das relações
sociais, pois nelas é que o ser humano começou a se perguntar o que é certo e
justo, o que é errado e injusto. Foi na convivência em sociedade que surgiu a
questão do bem e do mal e se teve a necessidade de elaborar as ideias de
honestidade, fidelidade, liberdade e justiça. A partir disso, com os parâmetros
estabelecidos do certo e do errado, leis foram criadas e governos surgiram para
disciplinar e punir os infratores, aqueles que não preservassem o bem estar
social (CORDI, 2007, p. 61).
A palavra ética vem do substantivo
grego ethos/êthos que por sua vez deriva de ethô (estar habituado, se
apropriar). Basicamente podemos afirmar que essas duas palavras significam:
costume, hábito, podendo ainda significar caráter, mentalidade, índole (WIESE, 2008).
Podemos afirmar que a partir de sua
definição etimológica, a ética e cidadania andam juntas. Enquanto que àquela se
refere à reflexão sistemática do que é o bem para todos, a cidadania se
relaciona com os direitos políticos, civis e sociais que possibilitam a
afirmação da dignidade e liberdade humana.
A cidadania pode ser entendida
ainda como o conjunto de direitos e deveres civis, políticos e sociais
estabelecidos na constituição de um país. Há um dever do Estado moderno em
proporcionar uma vida digna e participativa a todos os seus habitantes.
Portanto, cidadania tem haver com o direito à vida e com tudo o que está ligado
à sua promoção, tais como: justiça, saúde, trabalho educação etc. Mas é desafiador
atingir a cidadania plena. Por quais razões? Porque a maioria dos países coloca
suas leis pertinentes à ética e cidadania no papel, mas na prática acaba
ocorrendo outra coisa.
Assim, estamos diante do problema
da corrupção e da falta de boa vontade política (ética?) em levar a sério sua
vocação de promover os princípios éticos e a cidadania, a fim de promover uma
qualidade de vida para todos e, não apenas para uma minoria privilegiada e
poderosa, como frequentemente ocorre.
A relação entre ética e cidadania é
coisa antiga. Desde os gregos, os valores morais geraram reflexões, no afã de
construir uma organização social mais eficaz. Na verdade sempre foi desafiador
construir uma sociedade marcada pela ética e cidadania.
O filósofo grego Sócrates, ao
pensar sobre o fundamento e o sentido dos costumes estabelecidos, indagar o que
são virtudes e o bem realizava duas interrogações: Por um lado, interroga a
sociedade para saber se o que ela costuma considerar virtuoso e bom corresponde
efetivamente à virtude e ao bem. Por outro lado, interroga os indivíduos para
saber se, ao agir, possuem efetivamente consciência do significado e da
finalidade de suas ações, se seu caráter ou sua índole são realmente virtuosos
e bons (CHAUI, 2004, p. 311).
Sendo assim, observamos desde a
antiguidade a importância da ética e cidadania nas relações sociais. A indagação
ética socrática dirige-se, portanto, à sociedade e ao indivíduo. Então, Ética e
cidadania são dois importantes conceitos do mundo ocidental que nasceram em
contexto grego e que marcam os Estados Modernos e regidos por princípios
democráticos.
Apesar de inúmeras definições para
ética, e uma robusta reflexão filosófica ocidental sobre essa questão, muitas
pessoas parecem não ter compreendido ainda o seu significado e importância para
a vida cidadã. E o pior: vivem de tal forma que se isentam de sua responsabilidade
cidadã, resultando em uma sociedade desregrada e cada vez mais difícil de
conviver.
Diante disso, é da responsabilidade
de pensadores, líderes políticos e religiosos, professores, alunos, enfim,
todas as pessoas que primam por uma vida mais humana procurar acessar a
reflexão do passado, refletir no presente e viver eticamente, sempre levando em
conta o outro. O bem estar do indivíduo, não pode ser dissociado do seu
contexto social. Ninguém fica bem só e é aqui que a reflexão ética se mostra útil
para a promoção da cidadania.
2.2 ÉTICA E CIDADANIA NO DECORRER DO PROCESSO
HISTÓRICO
Desde a Antiguidade até os
dias atuais a ética sofreu diversas mudanças no decorrer do processo histórico.
A ética esta presente em nosso dia-a-dia, principalmente nas nossas relações
intrapessoais, ela é o a uma ciência que estuda o comportamento do ser humano.
Segundo Valls, a ética
“É entendida como um
estudo ou uma reflexão científica ou filosófica, e eventualmente até teológica,
sobre os costumes ou sobre as ações humanas. Mas também chamamos de ética a
própria vida, quando conforme aos costumes, e pode ser a própria realização de
um tipo de comportamento”. (VALLS, 1994, p.7)
Sendo assim, a ética
caminha com o homem desde a Antiguidade.
A ética nasceu na Grécia
Antiga voltada para os princípios religiosos e místicos, a fim de implantar
regras de convívio entre os grupos da sociedade. A ética neste período foi
representada pelos três filósofos mais influenciáveis da história: Sócrates,
Platão e Aristóteles.
Sócrates, pai da Filosofia
desenvolveu sua maiêutica em torno da ética. Para ele, o homem deveria apenas
saber sobre a questão da ética, pois isso seria o mais importante para sua
vida, pois o conhecimento seria a alma humana, onde vive a verdade e a possibilidade
de se tornar feliz, porém encontrar a verdade escondida dentro de si é um
exercício que exige muito preparo e o homem não está preparado para isso e o
filósofo teria a missão de conduzir o sujeito ao encontro da verdadeira
felicidade. Para encontrar a felicidade o homem precisa ser ético, ter uma
conduta correta, estar bem com o mundo, ser bondoso, virtuoso, fazer o bem a
toda à comunidade.
Platão, discípulo de
Sócrates, tratou a ética como algo ligado com as questões políticas, da
harmonia entre todos os moradores de uma determinada sociedade. Para ele a
ética deveria permitir que todas as pessoas partilhassem do poder, onde este
não ficasse nas mãos apenas de uma pessoa, mas de todas, onde não houvesse o
eu, ma o nós. Já para Aristóteles, o bem moral agem equilibradamente sobre a
orientação da razão. Segundo Passos (2004, p. 35), “o ‘meio-termo’, o ponto justo, levaria à felicidade, a uma vida ‘boa e
bela’, não como privilégio individual e sim coletivo”.
Na Idade Média a ética
ficou marcada nas teorias de Santo Agostinho e Tomás de Aquino.
Para Santo Agostinho apenas
o dom divino era capaz de resgatar o homem dos seus pecados, a ética estava
ligada aos princípios morais cristãos. Se você era um bom homem é porque sua
relação com Deus estava boa, se você estava agindo fora da ética é porque sua
relação com Deus estava em crise. Tomás de Aquino contradiz Agostinho, pois
para ele o homem possui o livre arbítrio, orientado pela sua própria
consciência, ele sabe o que deve fazer e pode escolher entre o bem e o mal.
Durante a Idade Moderna
ocorreu a Revolução Francesa e Industrial, onde a Teocentrismo foi substituído
pelo Antropocentrismo. Surgiram as teorias de Descartes e Kant. A ética continuou a ser vista como uma
ciência voltada para a felicidade coletiva vinculada para a felicidade plena
dos cidadãos. Com as mudanças e a introdução no poder do Estado que seria o
responsável pelo fornecimento e garantia de educação, justiça e direitos, condições
necessárias para se tornar um cidadão ético. Neste período importante da
história, Teles (2003, p.63) destaca que “a
ética na Idade Moderna realizou uma reflexão sobre a construção dos valores morais,
vitalizando uma crítica sobre práticas e ações humanas no âmbito da axiologia e
das teorias voltadas para os valores morais e existenciais”.
A Idade Contemporânea, a
qual se vive atualmente, os valores éticos e morais estão cada vez mais
ausentes. A ética neste período ficou marcada Iluminismo e pela implantação da
“Declaração dos Direitos Humanos”.
Kant foi um dos principais
representantes do Iluminismo alemão. Para ele a ética é de caráter racional
guiada pela boa vontade do ser humano, sem deixar influenciar-se pela emoção e
desejos particulares, deve seguir os parâmetros da moral, onde seus atos passam
a ser de sua inteira responsabilidade, propondo o conhecimento como a base da
racionalidade.
Usando a razão ou a emoção
agir eticamente é extremamente importante para conviver em sociedade, seja ela
qual for os limites, o respeito, o amor e a solidariedade devem ser a bandeira
de luta do homem, pois só assim o conceito de ética voltará a ser socrático,
sendo esse o padrão ético ideal para se viver em sociedade.
2.3 A ÉTICA E A CIDADANIA NAS RELAÇÕES
SOCIAIS
Vivemos numa era onde o
desrespeito, desamor, violência, desvalorização à vida e padrões imorais e
antiéticos estão cada vez mais presentes, desestruturando as sociedades ditas
evoluídas, pois torna-se cada vez mais difícil conviver em harmonia com a
ausência dos princípios e valores éticos e morais. Para viver em sociedade
faz-se necessário que o homem siga os patrões pré-estabelecidos nesta
sociedade, valores existenciais que devem ser passados em casa, pela família,
no entanto, o antropocentrismo e o egocentrismo falam mais alto e o ‘eu’ quer
passar acima do ‘nós’.
O conceito de ética evoluiu
com o decorrer dos anos, como já analisamos anteriormente, no entanto os homens
esqueceram a importância desta para viver em sociedade. Para Teles (2003, p.
39) é necessário que o homem reflita diariamente sobre a ética, pois esta é “uma reflexão sobre o fazer, antes de fazer,
procurando fazer bem”, só assim ele lembrará que não vive sozinho e que
suas atitudes baseadas na razão podem prejudicar e interferir a sua relação com
os outros.
Toda e qualquer sociedade
possui valores, alguns deles não são universais, o bem, o mau, justo e injusto,
correto e incorreto depende de cada cultura, grupo social ou período histórico,
no entanto o valor a vida, respeito ao próximo sim são valores universais,
inclusive promulgados na “Declaração Universal dos Direitos Humanos do
Cidadão”.
Há diversos fatores
responsáveis que influenciam o homem a não agir dentro dos padrões éticos de
uma sociedade. O primeiro deles é a mídia, onde as novelas e seriados mostram a
ganância, injuria, desrespeito, falta de valores, ensinando as pessoas a seguir
esses atos, mesmo que esse não seja o seu objetivo.
O capitalismo é outro
grande responsável, se não o maior deles pela falta de valores nas relações
sociais. Para adquirir um produto mostrado na TV, por exemplo, pessoas aceitam
serem exploradas, humilhadas, querem consumir, muitas vezes produtos que nem
lhes interessam, mas são estimuladas pelos donos do capital, que por sua vez
visam apenas o lucro. Comprar é a lei que estão mais presente nas vidas nas
famílias, os pais passam o dia todo trabalhando, para adquirir ainda mais
dinheiro e esquecem que em casa estão os seus filhos que necessitam de amor,
carinho, compreensão, auxílio, solidariedade, compaixão, se não possuem esses
valores casa, que exemplo eles levarão para suas futuras famílias?
Segundo Filho (2011, p. 3)
“a enorme
importância dada ao dinheiro, em virtude do incentivo exacerbado ao consumismo
de uma sociedade capitalista cavalar, desvirtuou as relações pessoais
cotidianas, ocasionando um novo direcionamento na escala de importância social”.
Falta uma educação
axiológica de valores, uma política de valores que aproxime mais as pessoas
umas das outras. O próprio Jesus disse que devemos amar uns aos outros como ele
nos amou. Os preconceitos étnicos, raciais, de sexo, são outro fator
responsável pela proliferação da violência e do desamor ao próximo. É comum
ligarmos a TV e vermos noticiários que mostram a crueldade dos homens contra
seu próximo, inclusive entre pessoas de seu próprio sangue, no entanto quando o
ser humano age de forma harmoniosa e contributiva, gera satisfação, alegria e
progresso.
O avanço alarmante dos
diversos tipos de violência demonstra que o homem não está exercendo
corretamente o seu direito de cidadania e que não está vivendo dentro dos
padrões éticos e morais. Muitos jovens estão suicidando-se com o uso das
drogas, matando inocentes a fim de ter dinheiro para comprar o produto de seu
vício, destruindo famílias, rompendo laços.
Mas apesar de todos os
horrores, o ser humano também possui bondade. É tão lindo vermos quando um
jovem ajuda uma senhora a atravessar a rua, beija a mão de uma jovem sem
malícia, doa um alimento ou um dinheiro a um mendigo na rua, segundo Rousseau o
homem nasce bom, mas é a sociedade que o corrompe.
Sendo assim, percebemos que
a própria comunidade corrompe os valores, porém para exercer o seu direito de
cidadania faz-se necessário que o homem viva dentro dos padrões éticos e morais
que a comunidade a qual ele está inserido segue, só assim teremos uma sociedade
mais justa, igualitária, onde a coletividade esteja acima dos interesses de uma
minoria, por isso ressalto mais uma vez que se faz necessário uma educação
voltada para a axiologia de valores.
2.4 A ÉTICA E O EXERCÍCIO DA CIDADANIA COMO
FONTE DE APRENDIZAGEM
As relações humanas, embora
complexas, são peças fundamentais na realização comportamental e profissional
de um indivíduo. Desta forma, a análise dos relacionamentos entre
professor/aluno envolve interesses e intenções, sendo esta interação o expoente
das conseqüências, pois a educação é uma das fontes mais importantes do
desenvolvimento comportamental e agregação de valores nos membros da espécie
humana.
Neste sentido, a interação
estabelecida caracteriza-se pela seleção de conteúdos, organização,
sistematização didática para facilitar o aprendizado dos alunos e exposição
onde o professor demonstrará seus conteúdos.
No entanto este paradigma deve
ser quebrado, é preciso não limitar este estudo em relação comportamento do
professor com resultados do aluno; devendo introduzir os processos construtivos
como mediadores para superar as limitações do paradigma processo-produto.
Segundo GADOTTI (1999, p.2), o
educador para pôr em prática o diálogo, não deve colocar-se na posição de detentor
do saber, deve antes, colocar-se na posição de quem não sabe tudo, reconhecendo
que mesmo um analfabeto é portador do conhecimento mais importante: o da vida.
Desta maneira, o aprender se
torna mais interessante quando o aluno se sente competente pelas atitudes e
métodos de motivação em sala de aula. O prazer pelo aprender não é uma
atividade que surge espontaneamente nos alunos, pois, não é uma tarefa que
cumprem com satisfação, sendo em alguns casos encarada como obrigação. Para que
isto possa ser melhor cultivado, o professor deve despertar a curiosidade dos
alunos, acompanhando suas ações no desenvolver das atividades.
O professor não deve preocupar-se
somente com o conhecimento através da absorção de informações, mas também pelo
processo de construção da cidadania do aluno. Apesar de tal, para que isto
ocorra, é necessária a conscientização do professor de que seu papel é de
facilitador de aprendizagem, aberto às novas experiências, procurando
compreender, numa relação empática, também os sentimentos e os problemas de
seus alunos e tentar levá-los à auto-realização.
De modo concreto, não podemos
pensar que a construção do conhecimento é entendida como individual. O
conhecimento é produto da atividade e do conhecimento humano marcado social e
culturalmente. O papel do professor consiste em agir com intermediário entre os
conteúdos da aprendizagem e a atividade construtiva para assimilação.
O trabalho do professor em sala
de aula, seu relacionamento com os alunos é expresso pela relação que ele tem
com a sociedade e com cultura. Abreu e Masetto, (1990, p. 115), afirma que,
“É o modo de agir do professor em sala de aula, mais do que suas
características de personalidade que colabora para uma adequada aprendizagem
dos alunos; fundamenta-se numa determinada concepção do papel do professor, que
por sua vez reflete valores e padrões da sociedade”. (ABREU & MASETTO,
1990, p. 115)
Segundo Freire,
“o bom professor é o que consegue, enquanto fala, trazer o aluno
até a intimidade do movimento do seu pensamento. Sua aula é assim um desafio e
não uma cantiga de ninar. Seus alunos cansam, não dormem. Cansam porque
acompanham as idas e vindas de seu pensamento, surpreendem suas pausas, suas
dúvidas, suas incertezas”. (FREIRE, 1996, p.96)
Ainda segundo o autor,
“o professor autoritário, o professor licencioso, o professor
competente, sério, o professor incompetente, irresponsável, o professor amoroso
da vida e das gentes, o professor mal-amado, sempre com raiva do mundo e das
pessoas, frio, burocrático, racionalista, nenhum deles passa pelos alunos sem
deixar sua marca”. (FREIRE, 1996, p.96)
Apesar da importância da
existência de afetividade, confiança, empatia e respeito entre professores e
alunos para que se desenvolva a leitura, a escrita, a reflexão, a aprendizagem
e a pesquisa autônoma; por outro, SIQUEIRA (2005: 01), afirma que os educadores
não podem permitir que tais sentimentos interfiram no cumprimento ético de seu
dever de professor. Assim, situações diferenciadas adotadas com um determinado
aluno (como melhorar a nota deste, para que ele não fique de recuperação),
apenas norteadas pelo fator amizade ou empatia, não deveriam fazer parte das
atitudes de um “formador de opiniões”.
Logo, a relação entre professor e
aluno depende, fundamentalmente, do clima estabelecido pelo professor, da
relação empática com seus alunos, de sua capacidade de ouvir, refletir e
discutir o nível de compreensão dos alunos e da criação das pontes entre o seu
conhecimento e o deles. Indica também, que o professor, educador da era
industrial com raras exceções, deve buscar educar para as mudanças, para a
autonomia, para a liberdade possível numa abordagem global, trabalhando o lado
positivo dos alunos e para a formação de um cidadão consciente de seus deveres
e de suas responsabilidades sociais.
2.5 O
PAPEL DO EDUCADOR COMO MEDIADOR DAS RELAÇÕES HUMANAS E SOCIAIS
Por mediação se entende a atuação do professor
como intermediário entre a informação a oferecer e a aprendizagem dos alunos. É
o momento em que o professor age como facilitador das ideias dos alunos,
fazendo a ligação entre ensino e aprendizagem. De acordo com ROCA (1999,p. 94) mediar é situar-se no meio [...] e, em suma
fazer-se ponte, abaixar-se para que os outros cresçam, estabelecer vínculos,
tanto mais necessários quanto maior for o abismo que é preciso transpor.
Facilmente se percebe que numa sala de aula há
diferenças de ordem familiar, cultural, intelectual, financeira, etc. que
revelam a complexidade do contexto social do qual estes alunos procedem. Sendo,
é necessário o papel do educador como mediador das relações sociais. Cabe ao
educador a criação de pontes, entre o saber e o aluno, proporcionando, desse
modo, o pleno acesso ao conhecimento apresentado.
No processo de mediação o professor,
inicialmente, traz à tona o conhecimento do aluno em relação ao assunto
abordado. Geralmente, se verifica que tal conhecimento trata-se de percepções
parciais sobre o assunto, que deve ser incorporado às novas informações passada
pelo professor, resultando num conhecimento mais abrangente com a participação
do aluno. Segundo Augusto Cury:
“Em muitas escolas, os alunos, os
professores e o conhecimento que transmitem estão em mundos diferentes. Um não
entra no mundo do outro. Os alunos não entram na história dos professores, os
professores não entram na história dos alunos, e ambos não entram na história
do conhecimento...” (CURY, 2001, p. 166).
Por isso, para que não haja essa discrepância
em relação ao objetivo da aprendizagem, o professor que exerce o ensino pautado
na mediação, apresentará, segundo Haidt, duas funções em relação aos alunos:
“Uma função incentivadora e energizante,
pois ele deve aproveitar a curiosidade natural do educando para despertar o seu
interesse [...] uma função orientadora, pois deve orientar o esforço do aluno
para aprender, ajudando-o pensar a construir o seu próprio conhecimento”.
(HAIDT, 2003, p. 57).
Isto significa que no papel de mediador, o
professor não transmite conceitos e informações de maneira pronta, acabada.
Antes, cria o que HAIDT (2003, p. 205) chama de “situações de ensino”, nas quais o aluno observa, coleta materiais,
informações e experimenta para só então sistematizá-los e chegar às conclusões
que lhe permitirão elaborar conceitos e princípios.
Dessa maneira, tendo em mente essa
“reciprocidade pedagógica” permeada de simpatia e respeito mútuo, o que segue é
uma construção natural do saber. Nesse processo, o professor tem um volume de
conhecimentos a compartilhar com os educandos; conceitos que deseja serem
plenamente compreendidos por eles. No entanto, não deve trabalhar sozinho, pois
após apresentar de maneira clara o que pretende alcançar irá procurar despertar
os alunos para que dêem a sua parcela de cooperação; o ideal é que não haja um
monólogo nesse processo (somente o professor a falar), “o maior trabalho de um mestre não é fornecer respostas, mas estimular
seus alunos a desenvolver a arte de pensar. Todavia, não há como estimulá-los a
pensar se não aprenderem sistematicamente a perguntar e duvidar” (CURY,
2001, p.162).
Para Libâneo o professor deve provocar a
interação, isto é, parar para ouvir seus alunos, seus questionamentos e
dúvidas, pois muito do que lhe disserem ou perguntarem servirá para analisar as
suas deficiências e, até mesmo perceber o crescimento em relação ao assunto em
estudo (LIBÂNEO, 1994, p. 250).
O professor em seu papel de mediador promove a
cidadania e a democracia, levando em consideração a participação do outro, e,
assim contribui significativamente para a criação de um mundo melhor.
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