1 PANO DE FUNDO HISTÓRICO DO DESCOBRIMENTO
DO BRASIL
É
impossível falar das raízes da cultura brasileira sem mencionar seus vários
referenciais culturais. Até o final do século XV o Brasil ainda não tinha sido
“descoberto”, portanto, a cultura por aqui era cem por cento indígena.
Exatamente no ano da passagem do século XV para o século XVI, toda a tradição
cultural dessas terras que posteriormente passaria a se chamar Brasil começou
passar por um processo de transformação. Essa transformação não pode ser vista
somente como boa, tampouco como ruim. Qualquer tentativa de avaliação no
sentido qualitativo seria um tanto quanto precipitada. Toda e qualquer história
de uma civilização, seja ela qual for, é composta por vários olhares,
principalmente quando esse processo se dá de forma imposta, como foi o assim
chamado “descobrimento” do Brasil.
Sérgio
Buarque de Holanda, em seu livro Raízes do Brasil, já no início do primeiro
capítulo, diz o seguinte:
“A
tentativa de implantação da cultura europeia em extenso território, dotado de
condições naturais, se não adversas, largamente estranhas à sua tradição
milenar, é, nas origens da sociedade brasileira, o fato
dominante e mais rico em consequências. Trazendo de países distantes nossas
formas de convívio, nossas instituições, nossas ideias, e timbrando em manter
tudo isso em ambiente muitas vezes desfavorável e hostil, somos ainda hoje uns
desterrados em nossa terra. Podemos construir obras excelentes, enriquecer
nossa humanidade de aspectos novos e imprevistos, elevar à perfeição o tipo de
civilização que representamos: o certo é que todo o fruto de nosso trabalho ou
de nossa preguiça parece participar de um sistema de evolução próprio de outro
clima e de outra paisagem.” (HOLANDA, 1963 p. 3)
Essa
citação em particular remete a história do Brasil exatamente ao ponto inicial
de colonização e imigração; ao momento exato em que a cultura indígena, primitiva
e tribal entra em contato com a cultura europeia, civilizada e colonizadora.
Podemos assim dizer que o germe cultural brasileiro nasce exatamente nesse
momento de confronto entre essas duas formas tão distintas de culturas. Vale
lembrar ainda que não estamos falando de uma cultura europeia tradicional, a
oficial por assim dizer, herdeira do Império Romano e toda sua tradição
cultural milenar. Estamos falando da cultura ibérica. Portugal, juntamente com
Espanha e Rússia estão situados geograficamente numa zona fronteiriça da Europa
com outras regiões do mundo, numa espécie de ponte de transição cultural entre
a Europa e o restante dos continentes conhecidos até então. Até o início da
navegações esses países à margem da cultura europeia eram insignificantes em se
tratando de inserção no continente europeu. Somente a partir do início das
navegações essa realidade começa a mudar e Portugal, juntamente com a Espanha
adentra de forma mais direta na Europa enquanto entidade cultural. (HOLANDA,
1963 p. 4)
Justamente
por esses fatores relacionados à “marginalidade portuguesa”, em relação ao
restante da Europa, unida às suas perícias em navegações, permitiu com que
Portugal tivesse acesso ao continente Africano. Sua posição geográfica, situada
no litoral lhe favoreceu no exato momento em que a Europa, influenciada pelo
renascimento e humanismo, buscava se aproximar com outros continentes. Seu
interesse em produtos asiáticos e Africanos possibilitou essa aproximação. (HOLANDA,
1963 p. 4) É justamente nesse ponto que Portugal sai da marginalidade e
se torna o ponte entre esses mundos. Hoje conjectura-se que a “descoberta” do
Brasil não foi exatamente como é contada nos livros de história. Afirma-se que
já havia um interesse nas terras além do Atlântico. Num primeiro momento pode
até parecer não sendo de crucial relevância falar dessa referência cultural
específica, uma vez que o tema remete diretamente à influência da cultura
africana em nosso país. Porém, um olhar mais atento ao tema não pode deixar
passar despercebido a palavra “influência”. Quem influencia sempre exerce essa
influência sobre alguém. No caso específico em questão as nossas três matizes
culturais se cruzam e entrelaçam. Nesse entrelaçar cada vertente cultural
absorve e transforma elementos próprios da outra vertente. Esse processo
iniciado lá em mil e quinhentos vem sendo desenvolvido ao longo de mais de
cinco séculos de história. Tivemos outros ondas migratórias em nosso país, cada
uma delas trazendo elementos culturais próprios de seus países de origem.
Graças a essa miscelânea cultural somos hoje um dos povos com uma bagagem
cultural das mais diversificadas. Temos os mais diversos fenótipos brasileiros.
Existem brasileiros com todas as cores e caras possível.
Com
a chegada dos português veio também a exploração das terras por aqui. A
princípio foram feitas algumas tentativas de explorar a mão de obra indígena, o
qual não se mostrou nada disposto a cooperar com os brancos. Os portugueses, ao
se depararem com a dificuldade em “adestrar” indígenas não tiveram outra saída
a não ser trazer os negros da costa africana, já conhecidos por eles, os quais
passaram a ser comercializados e escravizados no cultivo da cana-de-açúcar.
Esses negros trazidos da África, além de terem conhecimento das técnicas
agrícolas europeias tinham maior resistência imunológica e às doenças dos
brancos. Além disso, por não terem o conhecimento geográfico das terras
brasileiras nem o domínio das técnicas de sobrevivência na floresta, se
tornavam muito mais vulneráveis a dominação do que os povos nativos.
(PELLEGRINI, DIAS, GRINBERG V. 2, P. 101) Esse negro que, comprado em sua terra
de origem, transportado de forma cruel e desumana, e revendido ao chegar aqui
no comércio escravo, foi o terceiro elemento básico da formação étnica brasileira.
Se tornando assim um dos três elementos de formação étnico do povo brasileiro
nos três séculos seguintes. Somente a partir do século XIX é que, com a chegada
da família real ao Brasil houve gradativamente a entrada de outros imigrantes
em nosso território, o que permitiu uma nova reestruturação da formação étnica
brasileira. Entre esses novos imigrantes vieram italianos, alemães, japoneses,
libaneses e outros povos, cada um com seus costumes e tradições, mas nenhum
deles teve tanta influência como os representantes das três matrizes iniciais
da nossa formação enquanto povo brasileiro, tanto geneticamente quanto
culturalmente.
Maciçamente
falando, os escravos eram utilizados em sua maioria nas lavouras de
cana-de-açúcar. Porém, muitos deles também foram utilizados nos setores
urbanizados da sociedade brasileira de então. As funções variavam de
mensageiros da elite à construção de estradas e edifícios. (PELLEGRINI, DIAS,
GRINBERG V. 2, p. 107). Uma vez que, ao chegarem aqui, os escravos negros foram
colocados em todos os setores de trabalho, é fácil entender porque
influenciaram de forma tão significativa a sociedades brasileira. Essa
influência é percebida em todos os setores da cultura brasileira e seus traços
são percebidos na música, na religião, na culinária,
no folclore e nas festividades populares.
É
difícil falar com precisão sobre a quantidade de escravos que foram trazidos ao
Brasil no período da escravidão, uma vez que, a partir da abolição muitos
documentos foram destruídos. Mas estima-se que foram trazidos pra cá
aproximadamente 3,6 milhões de africanos para serem vendidos como escravos. Em
suas terras de origem eles tinham suas expressões religiosas, seus ritos e suas
divindades. Chegando aqui no Brasil eram batizados forçadamente pelos padres
jesuítas e em seguida recebiam uma rápida catequização, na qual “aprendiam a se
comportar como cristãos” e recebiam o “direito” de assistir as missas e
rezarem. Doutrinar pessoas religiosamente falando não é tarefa fácil, uma vez
que implica em interesse da parte do doutrinado e tempo para assimilação do
conteúdo. Pelo menos duas implicações decorrem dessa doutrinação forçada.
Primeiro, os escravos não tinham o mínimo interesse em serem doutrinados na
religião de quem os maltratava e os expunham ao risco constante de vida.
Segundo, os escravos eram vistos como mercadoria, tinham um preço, o que
demandava o recuperação do investimento inicial. A partir dessas duas
implicações pode-se deduzir que esse doutrinamento no cristianismo era
extremamente superficial e as crenças religiosas que trouxeram da África não
foram abandonadas em momentos algum. Porém, com o intuito de não entrarem em
conflito com os senhores feudais, cristãos, diga-se de passagem, a saída foi
misturar elementos afro-religiosos que estavam incutidos em suas crenças
religiosas com elementos do catolicismo, dando assim origem a uma forma bem
peculiar de sincretismo religioso. (DROOGERS, p. 10)
Elementos
desse sincretismo inicial ganharam força nas mais variadas expressões da
religiosidade brasileira. Santos católicos foram travestidos de Orixás. O
exemplo mais concreto dessa mescla é o São Jorge, o qual, com sua espada
empunhada é comparado e muitas vezes identificado com Ogum, o orixá do ferro e
da guerra. Maria, por sua vez, a mulher mais importante para o catolicismo
recebe algumas pequenas adaptações e passa a ser cultuada como sendo Iemanjá.
Esses são apenas duas entre tantas outras formas de adaptações entre figuras
importantes nas duas tradições religiosas do período da escravidão.
Essa
religiosidade sincrética surgida de forma bem peculiar aqui no Brasil acabou ao
longo dos séculos influenciando diversas expressões religiosas. O que era no
início apenas uma forma sútil de culto foi se transformando gradativamente em
novas religiões como candomblé na Bahia, o xangô no Recife, o batuque em Porto
Alegre e tantas outras vertentes, cada uma variando de acordo com a origem
tribal de seus fundadores. A partir do início do século XIX, quando a língua
portuguesa passou a ser a língua dos cultos, mulatos e brancos começaram a
frequentar as reuniões, o que ocasionou numa perda da identidade
caracteristicamente tribal dos povos africanos. O resultado disso foi um
processo de abrasileiramento da religiosidade africana e o surgimento, no
início do século XX, de religiões tipicamente brasileiras, onde a umbanda é
considerada a maior vertente desse período de adaptações à realidade urbana de
então. (DROOGERS, p. 15) Parece óbvio que, com o fim da escravidão e com a
liberdade de culto as religiões brasileiras seguissem cada uma seu rumo, não
havendo a necessidade de sincretismo. Mas não é bem assim. As influências
estavam muito bem estabelecidas no inconsciente coletivo brasileiro. Não era
mais possível separar os elementos característicos de uma e outra expressão
religiosa. É muito comum encontrar cristãos que participem regularmente de
cultos afros e vice-versa.
O
espiritismo Kardecista, com origem europeia, tão difundido entre a elite
artística brasileira e na classe média em geral, também sofreu fortíssimas
influências das religiões de origem africana. Até mesmo no pentecostalismo
brasileiro, com suas tradições fortemente arraigadas no protestantismo europeu
e principalmente norte americano tem fortíssimas influências das religiões e
cultos afros. A principal característica, típica das religiões afros é a
possessão de espíritos e seu consequente exorcismo por parte de seus líderes.
Não precisa ser cientista religioso para perceber a relação intrínseca entre
essas formas teoricamente divergentes de religião. Sociologicamente falando, o
pano de fundo das expressões religiosas atuais e suas influências africanas é o
mesmo da época das escravidão. Os antídotos aos males sociais de antes e de
agora são os mesmos. A religião serve como fonte de abrigo e de consolo a um
povo humilde que sofre e não tem onde nem a quem recorrer. (DROOGERS, p. 53)
A
religião é apenas uma das ramificações culturais em que a cultura africana
impregnou sua marca. Nossas expressões artísticas carregam em seu DNA as marcas
inquestionáveis da cultura africana. Suas cores, movimentos, formas e ritmos
são muito marcantes. Na dança temos as mais variadas expressões e ritmos. O
maior evento brasileiro é o carnaval. Esse evento anual é talvez a expressão
máxima de nossa cultura na forma de música, dança, folclore, trajes e ritmo.
Mas não apenas isso. Todos os principais gêneros da música brasileira são
nitidamente marcados pela musicalidade africana. Mesmo estilos mais eruditos
como o chorinho e a MPB brasileira estão impregnados dessa marca tão
característica que é a cultura africana.
Outra característica muito marcante da cultura
africana no Brasil é a questão dos diferentes temperos dados à nossa culinária.
Eles tiveram a capacidade de mesclar coisas da cozinha indígena com a europeia
e transformar em comida brasileira. O acarajé, o vatapá, o bobó, a feijoada são
pratos mais famosos da culinária afro-brasileira. Tem também o azeite de dendê,
comum na culinária baiana. Além disso, o coco, a banana, a pimenta malagueta, o
café são produtos oriundos das terras africanas. Esses no entanto são os mais populares, mas
existem muitas outras variantes regionais da cultura culinária africana,
dependendo de seu lugar de origem e da localização geográfica em que foram
estabelecidos aqui no Brasil as adaptações dos ingredientes básicos e dos
temperos foram acontecendo.
De forma resumida e
sintética, essas são apenas algumas das influências da cultura africana,
chegada até nós por meio dos negros escravos aqui no Brasil. Mas há muito ainda
que ser dito. Muitas vezes esses elementos são esquecidos, outras vezes são
negados categoricamente, numa tentativa de suprimir e força dessa expressão
cultural que é ao mesmo tempo o orgulho e a vergonha de nosso país. Tem-se
orgulho da tradição cultural africana e de tudo o que ela representa de
festivo, de bonito e de alegre, porém, tenta-se esconder o processo brutal,
cruel e desumano com que ela chegou até nós. Nesse sentido a nação brasileira
tem uma dívida muito grande com esse povo que veio contra sua vontade até aqui.
A forma mais óbvia de reparação é aceitar seus valores, suas tradições e suas
marcas inegáveis em nossa cultura enquanto povo brasileiro, mascado por tantas
vertentes e expressões culturais.
HOLANDA, Sérgio
Buarque. “Raízes do Brasil”. 26. ed. São Paulo: Companhia
das Letras, 1995.
PELLEGRINI, Marco; DIAS, Adriana Machado; GRINBERG,
Keila. Coleção: Novo Olhar, V. 2. São Paulo: Editora FTD, 2010.
DROOGERS,
ANDRÉ. E a Umbanda? São Leopoldo: Editora Sinodal, 1985.
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