segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

A INFLUÊNCIA DA CULTURA AFRO NO BRASIL

1 PANO DE FUNDO HISTÓRICO DO DESCOBRIMENTO DO BRASIL
É impossível falar das raízes da cultura brasileira sem mencionar seus vários referenciais culturais. Até o final do século XV o Brasil ainda não tinha sido “descoberto”, portanto, a cultura por aqui era cem por cento indígena. Exatamente no ano da passagem do século XV para o século XVI, toda a tradição cultural dessas terras que posteriormente passaria a se chamar Brasil começou passar por um processo de transformação. Essa transformação não pode ser vista somente como boa, tampouco como ruim. Qualquer tentativa de avaliação no sentido qualitativo seria um tanto quanto precipitada. Toda e qualquer história de uma civilização, seja ela qual for, é composta por vários olhares, principalmente quando esse processo se dá de forma imposta, como foi o assim chamado “descobrimento” do Brasil.
Sérgio Buarque de Holanda, em seu livro Raízes do Brasil, já no início do primeiro capítulo, diz o seguinte:
“A tentativa de implantação da cultura europeia em extenso território, dotado de condições naturais, se não adversas, largamente estranhas à sua tradição milenar, é, nas origens da sociedade brasileira, o fato dominante e mais rico em consequências. Trazendo de países distantes nossas formas de convívio, nossas instituições, nossas ideias, e timbrando em manter tudo isso em ambiente muitas vezes desfavorável e hostil, somos ainda hoje uns desterrados em nossa terra. Podemos construir obras excelentes, enriquecer nossa humanidade de aspectos novos e imprevistos, elevar à perfeição o tipo de civilização que representamos: o certo é que todo o fruto de nosso trabalho ou de nossa preguiça parece participar de um sistema de evolução próprio de outro clima e de outra paisagem.” (HOLANDA, 1963 p. 3)
Essa citação em particular remete a história do Brasil exatamente ao ponto inicial de colonização e imigração; ao momento exato em que a cultura indígena, primitiva e tribal entra em contato com a cultura europeia, civilizada e colonizadora. Podemos assim dizer que o germe cultural brasileiro nasce exatamente nesse momento de confronto entre essas duas formas tão distintas de culturas. Vale lembrar ainda que não estamos falando de uma cultura europeia tradicional, a oficial por assim dizer, herdeira do Império Romano e toda sua tradição cultural milenar. Estamos falando da cultura ibérica. Portugal, juntamente com Espanha e Rússia estão situados geograficamente numa zona fronteiriça da Europa com outras regiões do mundo, numa espécie de ponte de transição cultural entre a Europa e o restante dos continentes conhecidos até então. Até o início da navegações esses países à margem da cultura europeia eram insignificantes em se tratando de inserção no continente europeu. Somente a partir do início das navegações essa realidade começa a mudar e Portugal, juntamente com a Espanha adentra de forma mais direta na Europa enquanto entidade cultural. (HOLANDA, 1963 p. 4)
Justamente por esses fatores relacionados à “marginalidade portuguesa”, em relação ao restante da Europa, unida às suas perícias em navegações, permitiu com que Portugal tivesse acesso ao continente Africano. Sua posição geográfica, situada no litoral lhe favoreceu no exato momento em que a Europa, influenciada pelo renascimento e humanismo, buscava se aproximar com outros continentes. Seu interesse em produtos asiáticos e Africanos possibilitou essa aproximação. (HOLANDA, 1963 p. 4) É justamente nesse ponto que Portugal sai da marginalidade e se torna o ponte entre esses mundos. Hoje conjectura-se que a “descoberta” do Brasil não foi exatamente como é contada nos livros de história. Afirma-se que já havia um interesse nas terras além do Atlântico. Num primeiro momento pode até parecer não sendo de crucial relevância falar dessa referência cultural específica, uma vez que o tema remete diretamente à influência da cultura africana em nosso país. Porém, um olhar mais atento ao tema não pode deixar passar despercebido a palavra “influência”. Quem influencia sempre exerce essa influência sobre alguém. No caso específico em questão as nossas três matizes culturais se cruzam e entrelaçam. Nesse entrelaçar cada vertente cultural absorve e transforma elementos próprios da outra vertente. Esse processo iniciado lá em mil e quinhentos vem sendo desenvolvido ao longo de mais de cinco séculos de história. Tivemos outros ondas migratórias em nosso país, cada uma delas trazendo elementos culturais próprios de seus países de origem. Graças a essa miscelânea cultural somos hoje um dos povos com uma bagagem cultural das mais diversificadas. Temos os mais diversos fenótipos brasileiros. Existem brasileiros com todas as cores e caras possível.
Com a chegada dos português veio também a exploração das terras por aqui. A princípio foram feitas algumas tentativas de explorar a mão de obra indígena, o qual não se mostrou nada disposto a cooperar com os brancos. Os portugueses, ao se depararem com a dificuldade em “adestrar” indígenas não tiveram outra saída a não ser trazer os negros da costa africana, já conhecidos por eles, os quais passaram a ser comercializados e escravizados no cultivo da cana-de-açúcar. Esses negros trazidos da África, além de terem conhecimento das técnicas agrícolas europeias tinham maior resistência imunológica e às doenças dos brancos. Além disso, por não terem o conhecimento geográfico das terras brasileiras nem o domínio das técnicas de sobrevivência na floresta, se tornavam muito mais vulneráveis a dominação do que os povos nativos. (PELLEGRINI, DIAS, GRINBERG V. 2, P. 101) Esse negro que, comprado em sua terra de origem, transportado de forma cruel e desumana, e revendido ao chegar aqui no comércio escravo, foi o terceiro elemento básico da formação étnica brasileira. Se tornando assim um dos três elementos de formação étnico do povo brasileiro nos três séculos seguintes. Somente a partir do século XIX é que, com a chegada da família real ao Brasil houve gradativamente a entrada de outros imigrantes em nosso território, o que permitiu uma nova reestruturação da formação étnica brasileira. Entre esses novos imigrantes vieram italianos, alemães, japoneses, libaneses e outros povos, cada um com seus costumes e tradições, mas nenhum deles teve tanta influência como os representantes das três matrizes iniciais da nossa formação enquanto povo brasileiro, tanto geneticamente quanto culturalmente.
Maciçamente falando, os escravos eram utilizados em sua maioria nas lavouras de cana-de-açúcar. Porém, muitos deles também foram utilizados nos setores urbanizados da sociedade brasileira de então. As funções variavam de mensageiros da elite à construção de estradas e edifícios. (PELLEGRINI, DIAS, GRINBERG V. 2, p. 107). Uma vez que, ao chegarem aqui, os escravos negros foram colocados em todos os setores de trabalho, é fácil entender porque influenciaram de forma tão significativa a sociedades brasileira. Essa influência é percebida em todos os setores da cultura brasileira e seus traços são percebidos na música, na religião, na culinária, no folclore e nas festividades populares.
É difícil falar com precisão sobre a quantidade de escravos que foram trazidos ao Brasil no período da escravidão, uma vez que, a partir da abolição muitos documentos foram destruídos. Mas estima-se que foram trazidos pra cá aproximadamente 3,6 milhões de africanos para serem vendidos como escravos. Em suas terras de origem eles tinham suas expressões religiosas, seus ritos e suas divindades. Chegando aqui no Brasil eram batizados forçadamente pelos padres jesuítas e em seguida recebiam uma rápida catequização, na qual “aprendiam a se comportar como cristãos” e recebiam o “direito” de assistir as missas e rezarem. Doutrinar pessoas religiosamente falando não é tarefa fácil, uma vez que implica em interesse da parte do doutrinado e tempo para assimilação do conteúdo. Pelo menos duas implicações decorrem dessa doutrinação forçada. Primeiro, os escravos não tinham o mínimo interesse em serem doutrinados na religião de quem os maltratava e os expunham ao risco constante de vida. Segundo, os escravos eram vistos como mercadoria, tinham um preço, o que demandava o recuperação do investimento inicial. A partir dessas duas implicações pode-se deduzir que esse doutrinamento no cristianismo era extremamente superficial e as crenças religiosas que trouxeram da África não foram abandonadas em momentos algum. Porém, com o intuito de não entrarem em conflito com os senhores feudais, cristãos, diga-se de passagem, a saída foi misturar elementos afro-religiosos que estavam incutidos em suas crenças religiosas com elementos do catolicismo, dando assim origem a uma forma bem peculiar de sincretismo religioso. (DROOGERS, p. 10)
Elementos desse sincretismo inicial ganharam força nas mais variadas expressões da religiosidade brasileira. Santos católicos foram travestidos de Orixás. O exemplo mais concreto dessa mescla é o São Jorge, o qual, com sua espada empunhada é comparado e muitas vezes identificado com Ogum, o orixá do ferro e da guerra. Maria, por sua vez, a mulher mais importante para o catolicismo recebe algumas pequenas adaptações e passa a ser cultuada como sendo Iemanjá. Esses são apenas duas entre tantas outras formas de adaptações entre figuras importantes nas duas tradições religiosas do período da escravidão.
Essa religiosidade sincrética surgida de forma bem peculiar aqui no Brasil acabou ao longo dos séculos influenciando diversas expressões religiosas. O que era no início apenas uma forma sútil de culto foi se transformando gradativamente em novas religiões como candomblé na Bahia, o xangô no Recife, o batuque em Porto Alegre e tantas outras vertentes, cada uma variando de acordo com a origem tribal de seus fundadores. A partir do início do século XIX, quando a língua portuguesa passou a ser a língua dos cultos, mulatos e brancos começaram a frequentar as reuniões, o que ocasionou numa perda da identidade caracteristicamente tribal dos povos africanos. O resultado disso foi um processo de abrasileiramento da religiosidade africana e o surgimento, no início do século XX, de religiões tipicamente brasileiras, onde a umbanda é considerada a maior vertente desse período de adaptações à realidade urbana de então. (DROOGERS, p. 15) Parece óbvio que, com o fim da escravidão e com a liberdade de culto as religiões brasileiras seguissem cada uma seu rumo, não havendo a necessidade de sincretismo. Mas não é bem assim. As influências estavam muito bem estabelecidas no inconsciente coletivo brasileiro. Não era mais possível separar os elementos característicos de uma e outra expressão religiosa. É muito comum encontrar cristãos que participem regularmente de cultos afros e vice-versa.
O espiritismo Kardecista, com origem europeia, tão difundido entre a elite artística brasileira e na classe média em geral, também sofreu fortíssimas influências das religiões de origem africana. Até mesmo no pentecostalismo brasileiro, com suas tradições fortemente arraigadas no protestantismo europeu e principalmente norte americano tem fortíssimas influências das religiões e cultos afros. A principal característica, típica das religiões afros é a possessão de espíritos e seu consequente exorcismo por parte de seus líderes. Não precisa ser cientista religioso para perceber a relação intrínseca entre essas formas teoricamente divergentes de religião. Sociologicamente falando, o pano de fundo das expressões religiosas atuais e suas influências africanas é o mesmo da época das escravidão. Os antídotos aos males sociais de antes e de agora são os mesmos. A religião serve como fonte de abrigo e de consolo a um povo humilde que sofre e não tem onde nem a quem recorrer. (DROOGERS, p. 53)
A religião é apenas uma das ramificações culturais em que a cultura africana impregnou sua marca. Nossas expressões artísticas carregam em seu DNA as marcas inquestionáveis da cultura africana. Suas cores, movimentos, formas e ritmos são muito marcantes. Na dança temos as mais variadas expressões e ritmos. O maior evento brasileiro é o carnaval. Esse evento anual é talvez a expressão máxima de nossa cultura na forma de música, dança, folclore, trajes e ritmo. Mas não apenas isso. Todos os principais gêneros da música brasileira são nitidamente marcados pela musicalidade africana. Mesmo estilos mais eruditos como o chorinho e a MPB brasileira estão impregnados dessa marca tão característica que é a cultura africana.
Outra característica muito marcante da cultura africana no Brasil é a questão dos diferentes temperos dados à nossa culinária. Eles tiveram a capacidade de mesclar coisas da cozinha indígena com a europeia e transformar em comida brasileira. O acarajé, o vatapá, o bobó, a feijoada são pratos mais famosos da culinária afro-brasileira. Tem também o azeite de dendê, comum na culinária baiana. Além disso, o coco, a banana, a pimenta malagueta, o café são produtos oriundos das terras africanas. Esses no entanto são os mais populares, mas existem muitas outras variantes regionais da cultura culinária africana, dependendo de seu lugar de origem e da localização geográfica em que foram estabelecidos aqui no Brasil as adaptações dos ingredientes básicos e dos temperos foram acontecendo.
De forma resumida e sintética, essas são apenas algumas das influências da cultura africana, chegada até nós por meio dos negros escravos aqui no Brasil. Mas há muito ainda que ser dito. Muitas vezes esses elementos são esquecidos, outras vezes são negados categoricamente, numa tentativa de suprimir e força dessa expressão cultural que é ao mesmo tempo o orgulho e a vergonha de nosso país. Tem-se orgulho da tradição cultural africana e de tudo o que ela representa de festivo, de bonito e de alegre, porém, tenta-se esconder o processo brutal, cruel e desumano com que ela chegou até nós. Nesse sentido a nação brasileira tem uma dívida muito grande com esse povo que veio contra sua vontade até aqui. A forma mais óbvia de reparação é aceitar seus valores, suas tradições e suas marcas inegáveis em nossa cultura enquanto povo brasileiro, mascado por tantas vertentes e expressões culturais.
HOLANDA, Sérgio Buarque. “Raízes do Brasil”. 26. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
PELLEGRINI, Marco; DIAS, Adriana Machado; GRINBERG, Keila. Coleção: Novo Olhar, V. 2. São Paulo: Editora FTD, 2010.

DROOGERS, ANDRÉ. E a Umbanda? São Leopoldo: Editora Sinodal, 1985.

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