sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

A MOTOCICLETA, O FACEBOOK E A TRANSITORIEDADE DAS RELAÇÕES SOCIAIS




            Nesses tempos de redes sociais, quase todos tem dezenas de amigos, mesmo que na maioria das vezes nem sequer se conheçam. Amizades “virtuais” são mais fáceis de se construir e manter do que as “reais”. A distância mascara a realidade. Fotos retocadas são postadas todos os dias, pensamentos de outros são colocados como próprios, a pseudoepígrafe se tornou muito comum nas redes sociais, mas falta um vínculo concreto com a realidade. Pessoas que não vemos a anos de repente postam fotos de anos atrás, um retoque aqui, outro ali e pronto, temos a mais nova “modelo virtual”.
Tempos atrás encontrei o perfil de uma antiga conhecida, no álbum várias fotos e no perfil a atualização do status de relacionamento indicava que estava separada. Essas fotos não eram atuais, mas quem se importa, a intenção era “vender o produto”, a alma do negócio é a propaganda. Alguém diria que é golpe contra o consumidor (uso a linguagem mercadológica por uma razão óbvia: a exposição intencional era tal qual a de um produto).
A bastante tempo sou usuário da internet de forma geral, porém, como rede social meu uso é bem recente. Meu perfil no face é do final do ano passado. Além do face faço uso de outros sites também. A princípio tinha bastante restrições quanto a essa forma particular de uso, porém, com o tempo fui me acostumando e hoje diria que tenho dificuldades em ficar algum tempo isento dessa maneira de uso da internet. Estou cadastrado no facebook há mais ou menos um ano. Nesse período reencontrei alguns amigos que não via há um bom tempo, assim como fiz vários outros. Tem também o típico caso de pessoas que conhecia há anos, mas que, por um motivo ou outro não mantinha vínculos além de um oi ou um bom dia, mas que, através das redes sociais comecei a conversar com certa frequência e hoje converso até mesmo pessoalmente. Por outro lado as redes sociais já me trouxeram problemas também. Já perdi amizade bem estruturada devido a uma postagem ou comentário no facebook. Ocorreu também de deletar e ser deletado impiedosamente, sem nem sequer ter um motivo para isso pessoas que conheci só pela internet.
Por essas e outras razões muitas críticas são feitas em relação a volatilidade e superficialidade das relações nas redes sociais e que acabam também afetando as relações interpessoais concretas. Muitos dos críticos desse tipo de relações vêem a internet como um limitador das relações autênticas, om que é verdade em partes. “Na rede social, é mais fácil se relacionar do que no real, e isso se dá por vários motivos: você pode idealizar quem é e não se mostrar, pode criar um personagem de acordo com o que acredita que o outro espera de você, é possível esconder sentimentos e mostrar apenas o que se quer. Quando algo o desagrada, pode simplesmente sair ou parar a conversa e não precisa enfrentar situações desagradáveis ou pessoas que não deseja ter contato. É você quem controla a sua rede de amigos e o que as pessoas têm acesso, é uma falsa sensação de controle da própria vida”. Pelo menos é o que afirma Mônica Chaperman, psicóloga escolar. Ainda, segundo a psicóloga, “o perigo é não conseguir mais se adequar a realidade e viver a virtualidade no dia a dia. Os adolescentes fazem muito isso. Os amigos são mais virtuais. É comum na roda de amigos, cada um estar usando o seu celular, até conversam entre si e sequer se olham. Estão conectados, mas só que em si mesmos. Será que de verdade estão em relação?", questiona ela.
Dilton Ribeiro do Couto Junior é pedagogo, mestre e doutorando em educação e pesquisa fenômenos da cibercultura. relaciona a rede social sob outro ponto de vista: "As redes sociais e os diversos espaços físicos das cidades são indissociáveis. Digo isso porque as relações nos espaços físicos podem ser potencializadas nas redes sociais, e o contrário também é possível, muitos pessoas interagem no Facebook também para marcar encontros com seus amigos fora da rede", opina.
Realmente, as observações são válidas, é preciso ter clareza de que há uma linha muito tênue entre o uso saudável e o doentio desses tipos de mídias. Mesmo os relacionamentos reais, ou seja, aqueles fora das redes também tem seus problemas. Hoje a tendência de muitos críticos é de uma certa demonização das redes sociais, como se elas fossem a razão de toda liquefação das relações dos tempos modernos. Mas, mesmo antes das redes sociais as pessoas já vinham num processo de isolamento do mundo e das pessoas ao redor. É muito fácil e simplista dizer que as redes socais são responsáveis pelo isolamento das pessoas. Eu mesmo, muito antes da internet já mantive relações bem intensas com pessoas que hoje em€ dia não significam muito pra mim e vice versa. Muitas pessoas as quais fizeram parte de minha vida e eu da delas hoje nem sei se estão vivas ou não. E essas desconexões com tais pessoas não aconteceram simplesmente apertando o batãozinho de Ok para excluí-las, simplesmente aconteceram, sem nenhuma programação prévia. Há outros casos ainda de pessoas que nunca vi pessoalmente ainda, mas tenho contatos quase que diários, diria até que tenho vínculos mais profundos com elas do que tenho com pessoas que conheço pessoalmente há anos.

Sou motociclista há bons anos. A motocicleta me ensinou muitas coisas, entre elas o fato de que o motociclista é filósofo nato. Sabe que as coisas mudam muito rápido. Na próxima curva, no próximo metro de asfalto ou estrada pode estar a linha entre o correr livremente e uma cadeira de rodas, entre o destino de viagem e o leito de uma UTI, entre a vida e a morte. Ser motociclista é estar exposto o tempo todo a um destino do qual se tem pouco ou nenhum controle. Mas na verdade a motocicleta ensina isso por analogia, pois não há nada sob controle sob o sol, tudo é transitório. Como já dizia o pregador do Eclesiastes há mais de dois milênios: “vaidade das vaidades, tudo é vaidade”! Porém, apesar da transitoriedade das coisas, sempre fica algo de concreto, de real e essa concreticidade pode estar muitas vezes no fundamentada no abstrato, e esse abstrato/concreto é a necessidade do outro e o reconhecimento e a esperança de que as relações, por mais que possam estar sujeitas a liquefação muitas vezes são sólidas, sendo virtuais ou não...

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