Nunca fui o típico "brasileiróide" nacionalista defensor dos nossos hábitos, costumes e cultura como os melhores e superiores de todo o mundo. Tampouco me atrai a ideia de que o futebol, a feijoada, a caipirinha e o "jeitinho brasileiro" façam de nós um povo especial, maravilhoso, alegre e tantos outros adjetivos que corroboram aquela visão otimista de que somos o melhor povo da terra. Para os mais entusiastas do Brasil faz todo sentido a letra do Hino Nacional Brasileiro. Um país gigante pela própria natureza, que possui um povo heróico, que luta com braços fortes pela própria liberdade. Uma terra adorada entre outras mil, a Pátria amada! Que, quando se erguem da justiça a clava forte um filho seu não foge à luta, tampouco teme, quem a adora, a própria morte. Ou ainda e letra da música do jorge ben Jor. Onde se vê um país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza, como se isso não bastasse, em feveireiro ainda temos o carnaval. Um estrangeiro que não saiba nada sobre nosso país ficaria encantado se o disséssemos que essas músicas são fidedignas à realidade brasileira em todos os seus aspectos. Ficariam mais encantados ainda se descobrissem que Deus, dentre tantas nacionalidades possíveis, já que é o Senhor da terra, decidiu justamente ser brasileiro.
Segundo Marilena Chauí, no seu livro Brasil: Mito fundador e sociedade autoritária, escrito na ocasião da comemoração dos 500 anos do Brasil, "à sociedade Brasileira, essencialmente autoritária, se contrapõe a imagem de uma comunidade ordeira e pacífica, de uma gente alegre, ingênua e sensual, cujo caráter festivo compensa uma suposta inação para o trabalho". Segundo a mesma autora, toda imagem meticulosamente construída, de um país bonito, alegre, com as melhores pessoas do universo, remetem àquilo que ela chama de "mito fundador", núcleo em torno do qual gravitam repetidas formulações explicativas que têm por função denegar a violência em nossa sociedade. E esse mito tem por finalidade "legitimar a origem (não a formação), o destino e a configuração de uma realidade social. O mito é camuflagem, fábula narrativa, com poder mobilizador e integrador, prédica profética e fuga do tempo presente que invocam a ressurreição do tempo da pureza e da harmonia originais. O mito se inscreve no sonho de permanência, se pretende imutável, pois sua capacidade criativa é limitada por um conjunto de códigos que deve se repetir, indiferente à temporalidade e ao contexto histórico. Apesar da sucessão narrativa de imagens criadas em torno dele, funciona como conservadora solução imaginária de conflitos e contradições".
Visto dessa forma, um povo protegido por Deus, privilegiado em todos os aspectos da vida e da natureza favorável a nós, não há porque nos preocuparmos, pois somos predestinados às bençãos de Deus e o que resulta disto é a despolitização como principal característica do "mito fundador". Segundo essa concepção quase que teocrática, a questão do poder como participação política é escamoteada; lei, justiça e saber social estão incorporados no poder e na vontade dos governantes.
Ao longo de toda a história brasileira encontramos registros que corroboram a ideia do "mito fundador", da Carta de Caminha ao ufanismo futebolístico de Galvão Bueno. O mito nos é apresentado como atemporal, mas é ecoado em todos os períodos de erupção e latência. O mesmo mito ecoa em nosso "verdeamarelismo" oriundo das cores de nossa bandeira nacional e perpetrado nos mais diversos simbolos nacionalistas que vão do nosso orgulho tropicalista ao glorioso futebol da Seleção Brasileira, passando pelos mestres da intelecualidade brasileira, como Machado de Assis, Paulo Freire e muitos outros autores canonizados e equiparados aos grandes nomes da intelectualidade européia como Shakespeare, Piaget e tantos outros renomados pensadores. Nosso ufanismo realmente nos faz acreditar que, por ter o melhor futebol do mundo, possamos, de forma similar e paradigmática equiparar-nos sempre e sobrepor-nos muitas das vezes a outros povos.
Apesar de sermos um país com baixíssimo nível de desenvolvimento se comparado a países bem menores e menos favorecidos em sua geografia, natureza, clima e hidrografia, mantemos intactos o ufanismo triunfalista verde e amarelo. Mesmo que mais de um quarto da população brasileira dependa de programas sociais como o "Bolsa Família" para a subsistência básica, que nossas crianças continuem morrendo por desnutrição e descaso público, que a fila do INSS continue aumentando, que nossos idosos continuem sendo abandonados, que nossas mulheres continuem sendo vítimas da violência física, moral e sexual, que nosso nordeste continue sem água, que em nossas cidades continuem a proliferar as favelas, que os moradores de rua continuem aumentando a cada dia e que a saúde, a segurança e a educação estejam a cada dia mais caóticos, ainda assim temos orgulho do nosso futebol, feijoada, caipirinha, Machado de Assis, Paulo Freire, Chico Buarque, Caetano Veloso, Roberto Carlos, Lula e o Pelé. Como diria o colunista da veja, Diogo Mainardi "Quando alguém quer provar que o Brasil tem saída, sempre menciona Machado de Assis, como se um único escritor resgatasse séculos de falta de talento. Ele virou um álibi para o nosso fracasso". E continua Mainardi numa outra ocasião: “A principal causa do fracasso nacional é o otimismo psicótico dos brasileiros".
É óbvio que Marilena Chauí, tão ligada ao PT e às lideranças desse partido não diria as mesmas coisas se tivesse escrito o livro nos últimos doze anos. Mas, apesar da fidelidade escudeira da autora às atuais lideranças brasileiras o que foi dito há quatorze anos por ela faz todo o snetido nos dias de hoje, tanto no que se refere a imobilidade crônica de nosso povo quanto às aspirações perpetuadas ao poder e à parasitagem crônica de nossos políticos em relação ao povo, numa espécie de sacerdotalismo parasitário teocrático que vem desde os tempos do Brasil imperial. Tanto Marilena Chauí quanto Diogo Mainardi são tendenciosos em suas análises. Enquanto aquela criticava o governo anterior e compactua amplamente com o atual, Diogo Mainardi por sua vez nem sequer era conhecido na época dos governos anteriores, mas hoje é um dos maiores críticos do período petista no governo.
Qualquer leitura parcial e generalizante dos fatos pode ser prejudicial, porém, tanto um quanto outro dos críticos tem razão se compreendidos e interpretados na totalidade desse projeto falido de nação chamado Brasil. Por estas e outras razões nosso grande pedagogo, Paulo Freire, só conseguiu destaque por ter desenvolvido um método de alfabetização de adultos e todo seu projeto só faz sentido num país terceiro mundista onde até os dias de hoje tem alto índice de analfabetismo e, justamente por isso não conseguiu a visibilidade de Piaget ou de Vigotski. Pelas mesmas razões nosso produto maior de exportação na musicalidade tenha sido a Carmem Mirando com sua cesta de frutas na cabeça, exaltando nosso tropicalismo e nossos grandes ícones da MPB não terem a menor relevância nos dias de hoje, pois a regime militar acabou e não faz mas sentido cantar a Banda nos dias de hoje, no Brasil ou em qualquer lugar do mundo. Nunca tivemos um Pavaroti, um Jim Morrison nem um Led Zeppelin. Nunca conseguimos criar ícones da música internacional porque nossos artistas só fazem sentido num determinado período de nossa história e suas músicas não ultrapassam as barreiras fechadas da temporalidade. Na literatura, nosso grande ícone Machado de Assis só faz sentido num país em que a escravidão ainda imperava, por isso nunca produzimos um autor atemporal e internacional como Albert Camus ou William Shakespeare. Somente no Brasil um líder sindical chega ao poder, mesmo sendo considerado por muitos um semi-analfabeto. Somente no Brasil uma cesta básica pode eleger um presidente. Somente num país onde se morre de fome apesar de toda a bio-diversidade alguém que alimente seus súditos pode se manter no poder. Nossos ícones cinematográficos como Central do Brasil ou Carandirú só fazem sentido num país em que se faz necessário uma professora primária ganhando a vida numa estação escrevendo cartas a parentes de analfabetos em "Central do Brasil" ou em "Carandirú", o relato da frieza crônica de um dos maiores e mais crueis presídios, que se revelou incapaz de recuperar seus presos . Pelé, o grande ícone do futebol só poderia existir num país em que as crianças não tem acesso aos esportes que não possam ser praticados com uma meia recheada de pano, por isso raramente produzimos campeões em outros esportes, com raríssimas excessões de alguns previlegiados filhinhos de papai como Airton Sena ou Guga, ou alguns outros mantidos por alguma ONG voltada aos esportes. Apesar disso tudo continuamos a achar que Deus é brasileiro, que o Pelé é rei e que somos o melhor e mais pacífico povo do universo, a despeito de toda violência que grassa nos mais diversos extremos do país, quer seja no campo, por meio das lutas agrárias ou nos grandes centros urbanos comandados pelo tráfico de drogas e o crime organizado. Viva o Brasil!!! Tanto o do mito quanto o da realidade. Viva nosso ufanismo e nosso sentimento triunfalista, apesar de todas as derrotas vivenciadas em nosso cotidiano. Viva Machado de Assis e o eterno rei Pelé!!! Viva Lula, Dilma e Fernanda Montenegro!!! Viva!!!
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